'Clássico entre Flamengo e Vasco foi mais equilibrado do que parece'
Jogos com o roteiro do dramático Flamengo x Vasco de ontem induzem a algumas narrativas: a de que o Vasco foi mais corajoso no segundo tempo, que o Flamengo recuou demais com a vantagem... A rigor, nada disso parece ser fiel ao jogo, que teve a mesma cara desde a metade final da primeira etapa. Um jogo de idas e vindas, golpes e contragolpes: um Flamengo que hoje passa muito mais tempo defendendo perto de sua área do que nos tempos de Filipe Luís, e um Vasco que tenta atacar, embora ceda espaços demais. O jogo esteve sempre vivo, nunca definido, mesmo com o 2 a 0 para os rubro-negros.
Se o Vasco terminou o jogo com 20 finalizações contra 12 do Flamengo, realizou nove delas no primeiro tempo. Ou seja, não é uma grande diferença. Além disso, cedeu seis arremates ao rival em cada tempo. Claro que, num todo, os rubro-negros tiveram as melhores sensações de gol, aproveitando a vantagem obtida cedo para contra-atacar.
O curioso é que o futebol, este jogo sem fórmulas prontas, pregou outra peça. Renato Gaúcho optou por guardar para o segundo tempo jogadores que têm gerado maior perigo no ataque, casos de Adson e de Andrés Gomez, este último em recuperação de uma contusão. E quase que o plano ruiu porque, quando os colocou no jogo, já perdia por 2 a 0. O jogo do Vasco, baseado em tentar abrir as jogadas para os cruzamentos — foram 29 nos 90 minutos — , gerou algumas situações perigosas no primeiro tempo, mas raras finalizações tão claras. Mas foi com os reforços do banco na segunda etapa, quando preencheu mais a área por causa da necessidade no placar, que encontrou o empate. E sim, o Vasco jogou com coragem, mas a teve em quase todo o jogo. O problema é que pressionava mal, cedia o centro do campo, dava contragolpes, contribuía para um jogo de pouquíssimo controle.
E por falar em controle, aí chegamos ao Flamengo, o lado que saiu do Maracanã com o maior sabor de derrota deste empate em 2 a 2. O time vive uma transição que a cada jogo parece mais radical. Não é possível dizer que o preço venha sendo pago em resultados, porque neste aspecto a sequência é boa. Mas as sensações, por vezes, são de profunda insegurança defensiva.
Porque o Flamengo saiu da obsessão pelo controle com Filipe Luís, para o completo descontrole. Também saiu da busca quase permanente por um jogo que acontecesse no campo adversário, com retomada rápida da bola, para longos períodos de marcação perto de sua defesa e tentativa de ligar contragolpes em velocidade. Saiu das posses mais longas para o jogo mais direto, e é na busca por acelerar sempre que a perda da bola gera um jogo frenético, quase uma roleta russa. O Flamengo controlou o jogo no campo contrário na primeira metade do primeiro tempo, antes de se colocar atrás e apostar nas transições.
Com tudo isso, é um time que ataca bem e, claro, tem mais qualidade técnica. Algo que se sentiu no gol de Pedro, no ótimo contra-ataque que resultou no pênalti e em ocasiões que poderiam ter decidido a partida antes da reação vascaína. Mas que se defende mal, tanto nas tantas transições defensivas que concede, quanto ao se colocar para defender perto do próprio gol. Aos poucos, somando os desfalques e o cansaço de Pedro, Lino e o avanço do Vasco, foi perdendo ainda mais terreno.
É natural que o andamento do placar e o retrospecto recente deem ao Vasco as melhores sensações. Mas os dois treinadores têm deveres de casa. Renato, em relação às escolhas para os próximos jogos e à montagem de um time mais sólido. Jardim, terá de avançar na montagem de um time com proposta tão diferente da anterior. Empate no placar e nas lições que cada um leva do jogo.
SUPERADO
Os desfalques e a situação delicada na Libertadores cobraram um preço do Fluminense no Brasileiro. A necessidade de descansar jogadores para jogar na Argentina, fez surgir contra o Internacional um time sem criatividade e com um sistema de três zagueiros que não funcionou no primeiro tempo. Um contragolpe logo no começo da etapa final definiu o jogo, ainda que a equipe tenha crescido com as substituições e a mudança de sistema.
POLARIZADO
Quando o Palmeiras trocou o lateral Khellven por Allan, no intervalo do jogo com o Santos, sinalizou que, além de polarizado entre o alviverde e o Flamengo, este Brasileirão com uma pausa no meio do ano deverá exigir uma pontuação alta do campeão. Assim, cada ponto perdido importa. Se mantiver seu aproveitamento até o fim, o Palmeiras somará 89 pontos. Contra o Santos, o time até criou para virar o jogo, mas também se expôs a contragolpes.
DEMAGOGIA
Muitos jogadores assumiram que uma de suas atribuições é sinalizar à arquibancada que compartilham de uma espécie de ódio contra um rival local. Clássicos como o Cruzeiro x Atlético-MG de sábado viram uma sucessão de discussões, entradas duras e demonstrações de macheza. Houve só 47 minutos de bola rolando, 32 faltas e 12 cartões. No primeiro tempo, a maior sequência de bola rolando, sem interrupção, foi de um um minuto e meio.
Fonte: Carlos Eduardo Mansur - O Globo- SuperVasco