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Opinião: Romário e Eurico, o malandro e o coronel

O malandro e o coronel

Romário tem uma aparente independência, porém se submete ao que há de pior na cartolagem: Eurico Miranda

ROMÁRIO merece todo o respeito do mundo como futebolista, mas seu fim de carreira está virando palhaçada, se é que já não virou. Dublê de técnico e jogador, demitiu-se durante o último jogo do Vasco por ter tido sua autoridade atropelada pelo presidente do clube, o todo-poderoso Eurico Miranda. A história é sabida: Romário queria escalar Abuda, Eurico escalou Alan Kardec.

Romário pegou o boné e foi embora. Por um momento, admirei a altivez do técnico-jogador. Mas durou pouco. No dia seguinte Romário já se mostrava disposto a fazer as pazes, pedir a bênção e voltar a trabalhar para o sinhozinho Eurico. "Ele é um pai para mim", disse.

O Flamengo até procurou aproveitar a crise para tentar fazer o craque encerrar sua carreira na Gávea, mas tudo indica que o prolongado ocaso de Romário será mesmo com a camisa do Vasco.

Como admirador do futebol de Romário e de certos traços do seu temperamento, eu me pergunto o que leva alguém que foi um dos maiores atacantes da história, reverenciado por gente como Tostão e Maradona, a fazer tantas lambanças na reta final da carreira.

Começou com aquela história do milésimo gol, "mandrakice" assumida pela Rede Globo e tornada, portanto, verdade incontestável. Ora, Romário não precisava daquilo. Se contabilizasse 800 ou 900 gols, seria grande do mesmo jeito.

Incluir no cômputo gols feitos em jogos de casados e churrascos de fim de semana tirou o crédito e a seriedade do feito. Depois veio esse capricho de ser treinador, logo ele que sempre menosprezou os treinos, a disciplina, o espírito de grupo.

De quebra houve o episódio da suspensão por uso de substância proibida (um inocente remédio contra queda de cabelos) e, por fim, a briga com Eurico.

Aí é que entra minha nova decepção com o craque. Uma coisa que sempre admirei em Romário foi a sua aparente espontaneidade e irreverência. Mas essa independência de espírito, que o levou a cunhar frases deliciosas contra desafetos importantes (Pelé, Zico, Zagallo, Edmundo), ainda que ocasionalmente passando dos limites da educação, era só isso mesmo: aparência.

Se fosse mesmo o rebelde indomável que chegou a aparentar, não teria feito todo o seu final de carreira sob a égide de Eurico Miranda, representante dos piores vícios da nossa cartolagem. Há uma relação simbiótica entre os dois.

Enquanto Romário esteve em São Januário, Eurico sempre lhe deu costas quentes contra as cobranças dos treinadores, prometeu "aposentar" em sua homenagem a camisa 11 e procurou se promover com os feitos do craque -inclusive e sobretudo a patética saga do "milésimo". Assim são as coisas: o malandro não é um representante da sua classe, mas de si próprio. Vê as mazelas à sua volta, mas tenta tirar vantagem em tudo, mesmo que para isso precise se aliar ao pior tirano.

É assim que se faz a aliança entre o malandro e o coronel.

Fonte: Coluna de José Geraldo Couto - Folha de São Paulo