O pressentimento do tio do Rayan sobre o talento do jogador
Poucos metros separam a quadra da Praça Carmela Dutra, coração da comunidade da Barreira do Vasco, da entrada social de São Januário. Esse curto caminho foi o primeiro da também curta estrada que levou o atacante Rayan à Copa do Mundo. Cria da Barreira, do Vasco e do futebol brasileiro, o jogador de 19 anos, que defende o Bournemouth, convenceu o técnico Carlo Ancelotti a apostar em seu futebol e incluí-lo na lista da Copa do Mundo após apenas uma convocação — para os amistosos diante de França e Croácia, em março.
Filho do ex-zagueiro Valkmar, revelado pelo clube no fim da década de 1990, e de Vanessa, que também foi funcionária do cruz-maltino, Rayan viveu a infância, os primeiros passos no futebol, a adolescência e o início da vida adulta lado a lado e dentro dos muros da Colina Histórica. O primeiro contato com o esporte veio na comunidade, na escolinha do tio, Carlão.
"O Rayan chegou com 4 anos de idade, só que minha escolinha era a partir de 6 anos. Mas ele era muito forte, grande e forte, tinha a força de uma criança de 6 anos. Mais ou menos dois anos depois de começar comigo, um funcionário do Vasco viu ele jogando aqui na quadra e chamou para fazer um teste. Quando eu soube que ele faria o teste, tinha certeza de que ficaria, porque era uma criança diferente das outras. Só na batida na bola dava para ver que ele era diferente. Então, graças a Deus, ele está onde ele está porque merece, porque gosta de jogar futebol", lembra Carlão.
O pressentimento do tio estava certo. Rayan ficou no clube e avançou categoria a categoria. O Vasco percebeu cedo que estava lapidando uma joia que entregava artilharias, porte físico avançado e finalização. Aos 15 anos, Rayan já media 1,85m e havia marcado gol na Copinha, uma competição sub-20. É parte da geração 2005/2006 da base do clube, que projetou nomes como Guilherme Estrella, Leandrinho, Phillipe Gabriel, Lukas Zuccarello, GB e Avellar, e frequentou as categorias de base da seleção brasileira até chegar ao profissional cruz-maltino, em 2023.
Rayan subiu num momento em que o Vasco passava por uma mudança radical, poucos meses após a transformação em SAF e venda para a 777 Partners, antiga controladora. Naquele 2023, o clube retornava da Série B e promovia mudanças profundas em seu elenco. Quem o levou para o profissional (junto a nomes como Erick Marcus e Cauan Barros) na sequência de testes no Campeonato Carioca (competição em que Rayan fez sua estreia como profissional) foi o técnico Maurício Barbieri, que estava à beira do campo quando Rayan marcou seu primeiro gol no time principal. Foi numa derrota por 2 a 1 para o Internacional, em junho daquele ano, pelo Brasileirão. Um chute cruzado dentro da área, com a forte perna esquerda, que o tornou o mais jovem a marcar pelo Vasco no século XXI: 16 anos, 10 meses e oito dias.
"Era um jogador que já se destacava pelo físico, já tinha um porte que o possibilitava competir bem num elenco profissional. Tinha faro de gol, tanto que, uma das coisas que nos fizeram colocá-lo como titular nesse jogo contra o Inter foi estarmos com dificuldade de fazer gols, enquanto, nos treinamentos, o Rayan fazia gols. O Abel Braga era o coordenador técnico na época. Botamos ele no treino e ele faz um, faz outro... o Abel olha pra mim, eu olho pra ele: é, vamos ter que dar uma oportunidade para esse menino", conta Barbieri, hoje treinador do Juventude, que vê a convocação como merecida.
O estilo de jogo de Rayan é raro no futebol mundial: é um jogador alto, com capacidade de se livrar da marcação com a bola e de percorrer o campo rapidamente, impulsionado pelas passadas largas. Para completar, tem ótima e versátil finalização — no Bournemouth, tem marcado em espaços improváveis. Um jogo complexo, mas que parece simples para quem assiste. É um estilo tão incomum que, algumas vezes, levou o atacante a ser cobrado de forma injusta por, supostamente, "não correr" durante momentos de crise do clube.
O atacante já vinha ganhando espaço no time, mas despontou de vez com a chegada do técnico Fernando Diniz, em 2025. Entre broncas e abraços, o treinador foi essencial num ano em que Rayan marcou 20 gols. Em campo, ainda mostrou que, além de um ponta-direita, poderia assumir o papel de centroavante, desbancando Pablo Vegetti, um ídolo da torcida. Rapidamente, virou xodó dos vascaínos, ganhou música ("oi, boa noite") e por muito pouco não deixou o clube com uma Copa do Brasil na bagagem.
O futebol inglês não perdeu tempo em levá-lo. No Bournemouth, que pagou R$ 220 milhões para tê-lo, Rayan tem sete participações em gols (cinco gols e duas assistências) em 16 jogos, em reta final de campanha que já garantiu o clube numa competição europeia. Rayan se adaptou rapidamente e parece não sentir qualquer peso no badalado futebol inglês. Daqui a menos de um mês, viverá a experiência do palco máximo do futebol mundial.
O sorriso e o bom humor nas entrevistas após a convocação mostram a leveza do menino de 19 anos que, em poucos meses, começa a conhecer o mundo. Um jeito de encarar o futebol que pode ser resumido numa divertida fala a um repórter num Vasco x Internacional paralisado por chuva forte, no fim do ano passado. Perguntado se poderia haver jogo no campo encharcado, Rayan não titubeou:
"Dá mesmo. Jogar assim é muito bom. Já joguei muito assim na Barreira".
Fonte: Globo Online
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