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Vasco é o 6° clube que mais teve colombianos no elenco; ranking

O aumento da presença de jogadores colombianos no Brasileirão não é um movimento repentino nem fruto de uma única janela de transferências. Ele é resultado de um processo gradual, construído ao longo dos últimos anos, que envolve mudança de perfil dos clubes brasileiros, amadurecimento do mercado sul-americano e, sobretudo, a evolução esportiva da própria Colômbia no cenário continental.

Os dados mostram uma curva clara. Em 2022, 14 jogadores colombianos atuaram na Série A do Campeonato Brasileiro. Em 2023, esse número subiu para 16. No ano seguinte, em 2024, o crescimento se acentuou, com 22 atletas. Em 2025, já eram 23.

E, na atual edição do Brasileirão, temos 29 colombianos — o maior número já registrado e um marco simbólico de como o futebol brasileiro passou a ser um dos principais destinos para jogadores do país.

Esse avanço acompanha, quase em paralelo, a consolidação da seleção colombiana como uma das forças mais consistentes da América do Sul nos últimos ciclos. Depois de anos marcados por oscilações e reformulações, a Colômbia conseguiu estabelecer uma base competitiva, coroada com a campanha que levou o país à final da Copa América de 2024.

Não por coincidência, vários dos jogadores que sustentaram aquele desempenho tinham no Brasileirão seu principal ambiente de jogo, treino e desenvolvimento: Santiago Arias (Bahia), James Rodríguez (São Paulo), Richard Ríos (Palmeiras), Jhon Arias (Fluminense), Rafael Borré (Internacional) e Sebastían Gómez (Coritiba).

Nesse contexto, o Campeonato Brasileiro deixou de ser apenas uma vitrine para o mercado externo e passou a funcionar como espaço de maturação técnica e tática para atletas colombianos. A intensidade do calendário, a diversidade de estilos de jogo, a pressão por resultado e a exposição internacional transformaram a Série A em um ambiente atrativo tanto para jovens em ascensão quanto para jogadores já consolidados.

Para os clubes brasileiros, o movimento também reflete uma mudança estratégica. Com maior poder financeiro em relação a outros mercados sul-americanos e maior facilidade de adaptação cultural, a Colômbia se tornou um celeiro confiável de jogadores competitivos, prontos para responder no curto prazo.

O resultado é um intercâmbio cada vez mais frequente — e que ajuda a explicar por que, em 2026, os colombianos já figuram entre as nacionalidades estrangeiras mais representadas no Brasileirão — atrás somente da Argentina (41).

Em números e contexto: o avanço dos colombianos no Brasileirão

O gráfico que reúne todas as edições do Brasileirão por pontos corridos, de 2003 a 2026, ilustra como a presença colombiana deixou de ser exceção para se tornar padrão. Ao longo desse período, foram 259 participações de jogadores colombianos, distribuídas entre 128 atletas diferentes, que passaram por 38 clubes da Série A — uma média de 10,8 por edição, impulsionada por um crescimento contínuo nos últimos anos.

A curva revela três fases bem definidas. Entre 2003 e 2008, o avanço foi gradual, com média de cinco colombianos por temporada, ainda fruto de apostas pontuais. Já entre 2009 e 2014, o movimento entrou em retração, com média de apenas 3,8 jogadores e uma mínima histórica de dois em 2014, em um período marcado por menor poder de investimento e pouca estrutura de scouting internacional.

O ponto de inflexão acontece em 2016, quando o número salta de sete para 12 atletas — um aumento de 71% — e nunca mais volta a cair abaixo desse patamar.

O novo ciclo coincide com o novo contrato de direitos de TV da Globo/Turner (mais de R$ 1 bi/ano) e com a valorização do jogador colombiano no cenário continental após a Copa do Mundo de 2014 e a Copa América de 2016. A partir dali, o crescimento se torna estrutural, culminando no recorde absoluto de 29 colombianos na atual edição.

Alguns clubes foram decisivos para consolidar essa rota. O Athletico Paranaense lidera historicamente, com 25 participações (jogador x edição) em 24 edições, desde David Ferreira, em 2005, até chegar a cinco colombianos simultâneos em 2026 — marca inédita no campeonato. Fluminense (21), Santos (21), Palmeiras (18) e Vasco (16) completam o top 5.

Esse avanço mais recente não é aleatório e dialoga também com o surgimento e consolidação das Sociedades Anônimas do Futebol. O salto de 16 colombianos em 2023 para 22 em 2024, seguido por 23 em 2025 e o recorde de 29 neste ano, acompanha a profissionalização dos departamentos de scouting em clubes como Bahia (Grupo City) e Botafogo (Eagle).

Falando no Tricolor de Aço, a presença colombiana no Brasileirão também passou a redesenhar o papel do Nordeste nesse intercâmbio. Bahia, Fortaleza e Ceará somam, juntos, 34 participações de jogadores colombianos, em um movimento que rompe a antiga concentração no eixo sul-sudeste.

O caso do Bahia é emblemático: antes de 2017, o clube nunca havia contado com atletas do país e, desde então, já acumula 14 participações, impulsionado pela ampliação da capacidade de investimento e por processos mais estruturados de recrutamento. O Fortaleza segue trajetória semelhante, com dez participações, apoiado em uma gestão profissionalizada e contínua, que ampliou o alcance do clube no mercado sul-americano.

Tal movimento também pode ser lido a partir do perfil funcional dos jogadores colombianos que chegaram ao Brasileirão. Historicamente, os atacantes sempre dominaram esse intercâmbio: eles representam 48% dos atletas únicos (62 de 128) e 47% das participações totais (121 de 259), seguidos pelos meias, segundo grupo mais numeroso, com 21% dos jogadores e 48 aparições.

Até 2015, mais de 70% dos colombianos atuavam no setor ofensivo ou de criação. A partir de 2016, no entanto, o leque se amplia: zagueiros e laterais passam a ganhar espaço. Em 2026, quatro dos 29 colombianos atuam na zaga, sinal de uma integração cada vez mais completa às diferentes “demandas” do campeonato.

O olhar colombiano na centralidade do Brasileirão

Do ponto de vista colombiano, o crescimento do fluxo de jogadores rumo ao Brasil não é percebido como um fenômeno isolado do mercado de transferências, mas como consequência direta de uma assimetria estrutural cada vez mais evidente entre os dois países.

Para o jornalista colombiano Felipe Espinal, o fator econômico é determinante. Nesse cenário, a supremacia competitiva brasileira no continente funciona como prova concreta dessa distância.

— A situação econômica do Brasil mudou muito nos últimos anos. Acho que isso é mais do que tudo uma questão do Brasil em comparação com a Colômbia, aqui não podemos nos igualar. Ali está o exemplo claro de que os times brasileiros são os finalistas da Copa Libertadores. Não há nenhuma novidade nisso. É simples — disse à Trivela.

Essa migração também repercute diretamente na seleção colombiana recente, especialmente no ciclo que culminou na final da Copa América de 2024. Espinal vê o Brasileirão como um ambiente que acelera processos de evolução individual.

— Claro que cada jogador tem sua influência. Cada um evolui de acordo com suas capacidades e, se observarmos o que aconteceu depois da Copa América de 2024, essa experiência no Brasil pesa bastante.

Ao mesmo tempo, ele chama atenção para um contraste físico entre ligas, que ajuda a explicar por que a passagem pelo futebol brasileiro tende a ser formativa. Ela aparece como etapa de adaptação às exigências de intensidade e contato do alto nível sul-americano.

— Quando entram em campo, dá para notar que o jogador colombiano que vem do nosso futebol é muito leve fisicamente. Então muitas vezes não tem as condições para encarar o choque com o jogador brasileiro. Por isso, acredito que a passagem pelo exterior, especialmente em ligas mais competitivas como o Brasileirão, influencia e pode contribuir muito para o desenvolvimento do jogador colombiano e consequentemente da seleção. Hoje o Brasileirão ganhou muita força na percepção do torcedor colombiano — explica.

Na percepção do torcedor colombiano, essa combinação de força econômica, domínio continental e capacidade formativa já redefiniu o status do Brasileirão. Ele deixou de ser visto como escala intermediária e passou a ocupar posição central nas trajetórias de elite.

O movimento observado nos números, portanto, encontra correspondência clara no imaginário futebolístico da Colômbia: atuar no Brasil já não significa somente visibilidade, mas pertencimento ao principal ecossistema competitivo da região.

Do intercâmbio à identidade: como o Brasileirão molda o jogador colombiano

Se, em um primeiro momento, o fluxo de colombianos para o Brasil foi guiado sobretudo por oportunidade econômica e visibilidade competitiva, o estágio atual indica algo mais profundo: a construção de uma identidade profissional compartilhada.

Cada vez mais, o jogador colombiano que chega ao Brasileirão já carrega referências concretas de compatriotas que passaram — e prosperaram — pelo mesmo caminho. Esse efeito de continuidade reduz incertezas, acelera adaptações e transforma o Brasil em destino quase “natural” dentro da trajetória de elite sul-americana.

Essa rede de referências atua em múltiplas camadas. Ela aparece na confiança dos clubes brasileiros, que passaram a enxergar o mercado colombiano com menor risco de adaptação; nos próprios atletas, que encontram estruturas e estilos de jogo familiares; e até nos agentes e departamentos de scouting, que hoje operam com bases de dados, contatos e históricos consolidados

Não se trata mais de apostas individuais, mas de um corredor estabelecido de desenvolvimento, no qual a passagem pelo Brasil se tornou etapa “previsível” e planejada de carreira.

O impacto também é perceptível dentro de campo. A convivência contínua com o ritmo, a intensidade física e a complexidade tática do futebol brasileiro vem produzindo um perfil de jogador colombiano mais versátil e competitivo. Aqueles que retornam à seleção ou seguem para outros mercados carregam repertório ampliado: maior capacidade de duelo, leitura de jogo em cenários de pressão e adaptação a calendários densos.

Com isso, o intercâmbio deixa de ser apenas quantitativo para se tornar qualitativo e circular.

O Brasil recebe atletas formados na escola técnica colombiana e devolve jogadores mais completos ao cenário internacional — seja para a seleção, seja para ligas externas.

O resultado é uma retroalimentação que reforça o prestígio do Brasileirão na Colômbia e, ao mesmo tempo, consolida o país andino como um dos principais fornecedores de talento adaptado às exigências do futebol brasileiro.

Dados e infográficos: Júlio César Cardoso

Fonte: Trivela