Reunião no Vasco tem apoio a Pedrinho, mas também cobrança por transparência
Com rara presença do presidente da diretoria administrativa, Pedrinho, afastado do conselho da Vasco SAF, a reunião do Conselho de Beneméritos terminou em "união institucional", mas também pedido por transparência na venda do futebol do clube. Foi o que garantiu em entrevista ao ge, Luis Manuel, presidente do conselho do Vasco.
— Houve uma grande convergência de todos os poderes — afirmou o dirigente, que é ex-presidente do Conselho Deliberativo do Vasco, professor da UFRJ e secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Governo Federal.
Confira a entrevista: Luis Manuel Fernandes
ge: O Conselho de Beneméritos não tem, a priori, poder decisório no clube. De que maneira se deu essa discussão na reunião?
Luis Manuel Rebelo Fernandes: — A reunião tinha dois pontos. O primeiro era o ponto principal. Discutimos a situação com a decisão judicial da retirada dos representantes do clube do Conselho de Administração da SAF. O segundo ponto era dar oportunidade para oferecer esclarecimentos em relação a itens levantados no parecer da juíza que fundamentou a decisão.
— A decisão da juíza, na verdade, representa intervenção externa no clube, que afeta, que viola os direitos patrimoniais do clube, porque, seja como sócio majoritário ou sócio minoritário da Vasco SAF, o clube tem representação no conselho de administração da Vasco SAF. O Conselho de Beneméritos, além de poder moderador, tem a função de defesa do patrimônio do clube. Essa interferência gerou instabilidade institucional gigantesca. Uma espécie de paralisia que tem que ser superada. A decisão final não foi consensual, mas foi tomada por amplíssima maioria no Conselho.
Essa foi apenas uma deliberação?
— Foi um pronunciamento, uma manifestação pela imediata recomposição dos direitos patrimoniais do clube, de devolução integral dos direitos patrimoniais do clube e recondução dos representantes do clube no conselho de administração da Vasco SAF.
Houve discussão a respeito da proposta de venda da SAF do Vasco?
— Em primeiro lugar, que exista um memorando de entendimento entre a diretoria administrativa e o investidor, isso é normal. Mas, como proposta do Conselho de Beneméritos, (solicitamos) que a partir desse memorando de entendimento assinado, que fosse dada total transparência ao processo e que fosse constituída uma comissão para examinar os contratos, os termos do memorando de entendimento e os contratos dele decorrentes. Envolvendo o representante de todos os poderes do clube, inclusive o próprio Conselho de Beneméritos. O que foi feito há quatro anos, mas nós achamos que poderia ter tido mais transparência, que não havia nada mais grave, de sigiloso a ser preservado nos contratos que não pudesse ser preservado via “tarjeamento” das de passagens dos contratos. Mas nós fizemos um apelo para que fosse dada a maior transparência possível a esse processo e que uma vez assinado o memorando de atendimento que fosse constituída uma comissão para examinar todos os documentos, contratos, com representação dos poderes do clube.
E isso vai ser feito?
— É a nossa recomendação. O compromisso do Pedrinho foi da maior transparência do processo, mas ele não respondeu na reunião especificamente em relação a essa proposta da (criação da) comissão. Vamos aguardar se eles vão fazer o encaminhamento nessa direção ou não.
Esses últimos dias o senhor emitiu comunicado de que não havia qualquer movimento por impeachment. Isso foi tema na reunião?
— Logo no início da reunião fiz esse esclarecimento. Primeiro porque que nós nunca tivemos qualquer envolvimento, participação, proposição de iniciar qualquer processo de impeachment do presidente Pedrinho. E o Conselho de Beneméritos não tem nem competência para tanto. A função é de poder moderador, de defesa do patrimônio e de discussão de temas institucionais, de interesse do clube. Justamente essas três missões que se materializaram na discussão de hoje (sexta).
— Também informei e lamentei que a partir dessa informação falsa, nós sofremos ali várias ameaças pelas redes sociais, ameaças de agressão. Uma tentativa de intimidação do conselho e do exercício das suas funções. Nós não podemos ficar omissos como como poder, diante de uma situação de crise que nós estamos vivendo e nem podemos ser intimidados no exercício dessa nossa função.
Houve esclarecimentos questões administrativas, de governança, que estão citadas na ação judicial?
— Foi aberto o espaço em todos os temas da decisão da juíza, foram questionados, foram levantados e a diretoria da sua parte prestou esclarecimentos. Algumas questões, inclusive, estão sendo remetidas agora para o Conselho Fiscal do clube, não da Vasco SAF. Tanto que em relação àquela acusação que foi feita, especificamente ao Alan Belaciano (presidente da Assembleia Geral), da negociação no âmbito da recuperação judicial. Ele prestou os esclarecimentos dele, a diretoria também apresentou pela indicação dos representantes do Vasco SAF. O nosso entendimento é de que deveria ter passado pelo Conselho Deliberativo e acabou não passando pela condição criada, mas isso não foi trazido para deliberação porque isso não foi questionado lá no parecer da juíza. Mas houve forte manifestação contrária e um apelo à defesa institucional e à união dos poderes, dos sócios, da torcida na defesa institucional. Acho que foi a marca da reunião.
Na negociação da 777, o senhor foi um dos que se absteve na aprovação da venda e disse que os estavam sendo subestimados. Como o senhor vê o negócio agora?
— Por isso o apelo do Conselho é que fosse dada total transparência ao processo e que fosse constituída uma comissão com representantes dos poderes, inclusive dos Beneméritos, para poder examinar todos os contratos derivados do memorando e que vão fundamentar eventual negociação com o investidor. Para que nós pudéssemos nos posicionar sobre os mecanismos de defesa institucional necessários, né?
— Isso também envolve também o due diligence bem efetuado do investidor. Isso não foi feito no caso da 777. Foi um dos pontos daquele nosso parecer e, infelizmente, terminou com a 777 em crise falimentar global, não é nem só no Brasil.
Mas houve defesa da diretoria por esse acordo?
— O Pedrinho apresentou os principais do que seria o memorando de entendimento. Não difere muito das informações que estão circulando na mídia. Mas o nosso pedido foi de que a questão fosse debatida nos canais institucionais adequados, ao qual o Pedrinho respondeu que sim, que será levado ao Conselho de Beneméritos, ao Conselho Deliberativo e, por fim, à Assembleia Geral Extraordinária. Mas nós dentro desses critérios solicitamos que fosse constituída essa comissão para poder ter um olhar mais detido sobre ter todos contratos para poder emitir opinião a respeito.
Os Lamacchias disseram que a questão com a 777 será resolvida de maneira simples. Mas até agora não foi. A diretoria disse algo sobre isso?
— Não, o que o Pedrinho apresentou ali foram os termos gerais do memorando de entendimento. Como a questão com a 777 vai ser negociada, ele não apresentou a informação sobre isso especificamente. O que ele indicou é que para poder retomar o processo, o Vasco precisa reocupar as suas cadeiras no conselho de administração da SAF do Vasco. Ele relatou os prejuízos institucionais criados agora, a incerteza em relação a várias decisões institucionais de renovação de elenco, contratação de treinador, os prejuízos adicionais que estão decorrentes dessa decisão da Justiça, a duas semanas de voltar a competir no Campeonato Brasileiro.
Foi também informado como está a situação financeira? A informação é de que o dinheiro está curto.
— Já a partir do parecer do Conselho Fiscal da SAF já tinha sido apontada a necessidade de empréstimo de R$ 80 milhões para fluxo de caixa ao longo deste ano. Isso já tinha sido tratado anteriormente. O que foi levantado é o seguinte: o planejamento por parte da diretoria envolvia, a partir do memorando de entendimento e das discussões realizadas, era de que pudesse dar impacto imediato em relação ao fortalecimento do time, a competitividade esportiva do clube de futebol e com desdobramentos a partir do novo investidor em 2027 em diante. Mas foi colocado mais nesses termos. Não se entrou em nada mais específico.