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Possível compra da SAF do Vasco por Marcos Lamacchia levanta discussão

Leila Pereira, Vasco SAF e multipropriedade: afinal, a lei permite esse negócio?

A possível compra da SAF do Vasco por Marcos Faria Lamacchia levantou uma discussão imediata no futebol brasileiro: a operação fere ou não o Regulamento do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF) da CBF, especialmente as regras sobre multipropriedade de clubes?

O debate ganhou força porque Leila Pereira, atual presidente do Palmeiras, é casada com José Roberto Lamacchia, pai de Marcos. Marcos, por sua vez, negocia a compra da SAF do Vasco, o que o tornaria sócio majoritário do clube carioca.

Mas o parentesco, por si só, é suficiente para barrar a operação?

O que diz o regulamento da CBF

O artigo 86 do Regulamento do SSF proíbe que uma mesma pessoa exerça controle ou influência significativa sobre mais de um clube que dispute a mesma competição ou divisões conectadas por acesso e rebaixamento.

Para evitar manobras indiretas, o regulamento também determina que, na apuração desse controle, sejam somadas as participações do próprio investidor com as de seu cônjuge e parentes até o segundo grau (pais, filhos e irmãos).

Essa regra existe para impedir que o poder seja fragmentado artificialmente dentro de uma família, mascarando uma influência comum.

Onde entra o nome de Marcos Lamacchia

Marcos Faria Lamacchia é filho de José Roberto Lamacchia, mas não é filho de Leila Pereira. Trata-se, portanto, de uma relação de afinidade (enteado), e não de parentesco direto previsto no regulamento.

O detalhe é decisivo:

➡️ enteados não estão expressamente incluídos no rol de parentes considerado pelo artigo 86.

Na prática, isso significa que o regulamento não veda automaticamente que Marcos seja controlador da SAF do Vasco apenas por ser enteado da presidente do Palmeiras.

Então está tudo liberado?

Não exatamente.

O regulamento vai além do parentesco formal. Ele também considera “influência significativa” qualquer situação em que haja, na prática:

- coordenação de decisões,
- poder de veto,
- interferência na gestão,
- financiamento cruzado,
- ou alinhamento estratégico entre clubes.

Ou seja, mesmo sem proibição automática, a CBF pode intervir se ficar comprovado que Palmeiras e Vasco passam a funcionar sob um mesmo centro de poder.

Exemplos de risco regulatório seriam:

- recursos da família usados para financiar ambos os clubes;
- compartilhamento de dirigentes, executivos ou informações estratégicas;
- operações frequentes entre os clubes, como empréstimos de jogadores;
- acordos informais de influência.

Qual é o cenário mais provável

Do ponto de vista estritamente jurídico, a compra da SAF do Vasco por Marcos Lamacchia é defensável com base no texto atual do regulamento.

Do ponto de vista regulatório e político, porém, o caso deve ser tratado com lupa pela ANRESF (órgão da CBF que fiscaliza o SSF). Não está descartado que a entidade:

- imponha compromissos de governança,
- exija mecanismos de blindagem,
- ou acompanhe a operação de forma contínua.

Em resumo

❌ Não há violação automática do regulamento
⚠️ Há risco regulatório se houver influência cruzada comprovada
⚽ O debate não é sobre sobrenome, mas sobre poder real

O caso mostra como o futebol brasileiro entra numa nova era: menos decisões no “achismo” e mais atenção à governança, à transparência e à integridade das competições.

Legalmente possível não significa ausência de fiscalização. E, no futebol moderno, isso faz toda a diferença.

Fonte: X Podcast Cruzmaltino