Futebol

Ex-Vasco, Juninho relembra infância difícil

Toda semana o futebol cria novos heróis e vilões. O autor do gol da vitória de um clube vira o centro das atenções dos torcedores. Quem perde uma grande chance, passa a ser o causador de todos os problemas. Tudo muito efêmero, passageiro.

Outros personagens surgirão em poucos dias, mas em meio aos holofotes, existem histórias de vida dos protagonistas que vão além do gramado e muitas vezes não ganham as manchetes. Momentos que impactam na performance dentro de campo.

Juninho, volante do Novorizontino, é um desses exemplos. Na última rodada do Paulistão, o jogador marcou o gol da vitória contra o São Bernardo já nos acréscimos. Um gol importante, que manteve o Tigre na liderança. Juninho não conteve as lágrimas na hora da comemoração.

— Quando entrei no jogo, eu ouvi a voz dela gritando: ‘Vai, Júnior’. E naquele momento, eu entrando no jogo, eu comecei a chorar. Acho que meus companheiros não entenderam nada. Poder ouvir aquela voz novamente, eu falei, minha tia está aqui. Comecei a orar para ser abençoado com um gol e poder dedicar a ela. Eu já estava até desacredito, mas aconteceu. Deus me abençoou, eu pude fazer aquele gol maravilhoso e dedicar a ela, e à minha esposa — confidenciou em entrevista ao programa Resenha Esporte Clube, da Rádio Esperança, de Novo Horizonte.

A tia não é tia de sangue, mas de consideração. Angélica Monteiro foi uma presença importante na vida do hoje camisa 50 do Novorizontino. A relação começou quando ele ainda era uma criança de nove anos.

Por conta de dificuldades financeiras familiares, Juninho, que à época vivia com a sua mãe, não tinha condições de se deslocar de Volta Redonda, onde residia, até o Rio de Janeiro, cidades que estão separadas por cerca de 130 km.

Na categoria de base do Flamengo, o volante jogava com o filho de Angélica, o goleiro João Fernando, que hoje é profissional do Boavista-RJ. Ela assumiu a responsabilidade de levar os dois garotos aos treinamentos.

Essa relação foi interrompida quando Juninho foi dispensado do clube, aos 10 anos, por indisciplina. Sem o futebol, a vida tomou outro rumo.

— Eu não ia mais para a escola, não estava jogando e estava começando a roubar. Eu estava viciado em roubar dinheiro, eu era ladrão, ladrãozinho mesmo — revelou.

Com pais separados, Juninho, após a saída do Rubro-negro, foi morar com o seu pai, Alexandre, em Nova Iguaçu, na baixada fluminense.

— Meu pai conseguiu tirar esse vício de mim. Quando o Flamengo soube disso foi na minha casa e perguntaram se eu poderia voltar, e eu voltei. Só que meu pai não tinha condições de ficar me levando todos os dias. Um dia ele me deu o dinheiro da passagem (para ir ao CT) e disse que eu poderia ir ou voltar a trabalhar com ele. Eu tinha 11 anos e decidi ir para o clube — contou.

Durante dois anos, entre transporte público e algumas caronas, Juninho fez o trajeto de cerca de 60 quilômetros entre a Baixada Fluminense e Vargem Grande, bairro do Rio de Janeiro onde fica o centro de treinamentos do Flamengo.

Aos 13 anos, o jovem jogador e seu pai mudaram para Vargem Grande. Com problemas de relacionamento, Juninho saiu de casa. Como o pai era o responsável legal por ele, mais uma vez, foi dispensado pelo Flamengo.

Neste momento, a tia Angélica surge novamente.

— A gente se mudou para Vargem Grande com ela pagando o nosso primeiro aluguel. Quando eu saio de casa, ela posta uma foto comigo dizendo que não ia desistir de mim. Ali, ela me chamou para morar com ela, sabendo de tudo que eu estava fazendo de errado, porque eu estava me desviando do caminho novamente. Eu volto para Volta Redonda, para morar com ela e, depois de quatro meses, eu fui para o Vasco. Dali, eu segui a minha vida sozinho.

— Então, desde os meus 15 anos, a minha tia nunca tinha ido mais a um jogo meu. Ela me acompanhou desde os nove até os 15. Eu sempre via ela no estádio gritando. Meu pai e minha mãe, acho que foram (me ver jogar) uma vez só, mas a minha tia sempre me acompanhou — contou.

Juninho atuou de 2017 a 2023 no Vasco, sendo os três últimos anos como profissional. Depois, defendeu Orlando City, dos Estados Unidos, Goiás e Criciúma.

Foto: Rafael Ribeiro/Vasco.com.brJuninho festeja gol marcado contra o Volta Redonda
Juninho festeja gol marcado contra o Volta Redonda

Com o Novorizontino, o volante vive a liderança do Paulistão. Com 16 pontos, o próximo compromisso será neste domingo, às 20h30, para enfrentar o Bragantino, em Bragança Paulista, o clube já está garantido nas quartas de final da competição.

Pontuação que já garantiu o Aurinegro, pelo menos, com a segunda colocação. Ou seja, no mata-mata decidirá o jogo das quartas em casa. Uma eventual semifinal e final, também podem ser decididas em Novo Horizonte.

A história de vida de Juninho é marcada por inúmeros desafios e com a camisa do Tigre, ele quer mais.

— Primeiro é a humildade de lutar, porque não ganhamos nada, mas por que colocar um empecilho no nosso sonho? Por que não sonhar mais? Então, com muita humildade, a gente sonha, né? Não tem um bicho de sete cabeças, mas a gente acredita no nosso potencial — finalizou o camisa 50.

Fonte: ge