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Ex-Santos deseja sorte a Ricardo Sá Pinto no Vasco

Contratado para treinar o Santos no rastro do sucesso de Jorge Jesus do Flamengo, o português Jesualdo Ferreira passou sete meses no litoral santista. Uma conta rápida ajuda a mostrar um pouco da dificuldade do treinador no Brasil – uma realidade que espera o novo técnico do Vasco, Ricardo Sá Pinto, e da qual não escapou esse vitorioso e experimentado treinador de 74 anos.

Jesualdo iniciou treinos com o Peixe dia 9 de janeiro (no dia anterior, foram exames físicos), estrou no dia 23 e a pandemia paralisou tudo 14 de março. No oitavo dia depois do retorno do futebol (espaço de 22 a 30 de junho), ele foi demitido, depois de ser eliminado pela Ponte Preta no Campeonato Paulista.

Em suma, foram cerca de 90 dias em quarentena em Santos – mais do que os 60 de competição para cumprir 15 jogos pelo Peixe - seis vitórias, quatro empates e cinco derrotas (aproveitamento de 48,8%).

Em entrevista ao ge, ele contou que já sabia das dificuldades de se trabalhar no Brasil, mas admitiu que a realidade foi mais impressionante do que as informações que tinha.

Sá Pinto teve bons resultados no Braga. Jesualdo elogiou disposição ofensiva do ex-atacante, mas lembrou que ele vai precisar de sorte diante dos obstáculos com pequeno espaço de treinos e necessidade de rápida adaptação — Foto: Divulgação/Braga

As primeiras palavras de Sá Pinto na chegada ao Vasco

- Sá Pinto vai encontrar essa realidade no Vasco. Como é que o Sá Pinto, que nunca veio ao Brasil? Eles (dirigentes) conhecem? Quando chega, querem ver resultado imediatamente e o tempo é muito curto. Para mim, a dificuldade maior é não haver tempo para trabalhar. Tempo e paciência. Ninguém tem - comenta o treinador.

Lembra como o Santos demitiu Jesualdo Ferreira

Jesualdo conheceu o pai de Sá Pinto, que foi jogador do Porto. Acompanhou a carreira do atacante desde os tempos de Salgueiros – “foi um jogador muito dotado tecnicamente, muito agressivo” – e desejou sorte ao compatriota, sem deixar de alerta para a máquina de moer técnicos do Brasil.

Ele se espantou ao saber da demissão de Vanderlei Luxemburgo no Palmeiras, aquele que venceu o Paulistão que mal conheceu e que, como lembra, é um dos mais vitoriosos do país. Também citou a demissão de Luis Felipe Scolari no mesmo clube recentemente e de Tiago Nunes do Corinthians.

- Para mim, é o lugar mais difícil para treinar que há. O futebol brasileiro é o mais difícil de todos no mundo. Pela exigência que há e pela falta de tempo pra trabalhar. Pela exigência que há e pela falta de tempo para trabalhar – resumiu.

- De quem é a responsabilidade? É só dos treinadores? É um ambiente muito difícil para qualquer treinador. Muitas vezes você sabe trabalhar bem e não tem como.

“Problemas do Santos ninguém podia resolver”

Em papo de 30 minutos por telefone, Jesualdo descreveu o estilo do trabalho de Sá Pinto como técnico que privilegia o coletivo e estimula seus jogadores a serem agressivos para o gol adversário. Pontuou, com bom humor, os obstáculos que pode enfrentar com o curto espaço de tempo entre uma partida e outra.

- Pouco tempo para treinar é uma especialidade que tenho (risos). Amanhã, por exemplo, no primeiro jogo, os jogadores o conhecem mal, o time vai mal. Ele vai ver os que estão indo bem, os que estão mal, se há tempo para treinar, mas não há. É uma situação completamente nova e vai ter que se adaptar. Espero que consiga ter tempo para poder trabalhar dentro daquilo que é a falta de tempo do futebol brasileiro - disse Jesualdo, lembrando que a eliminação na Copa do Brasil ao menos permite mais tempo ao novo técnico português em terras brasileiras.

Ao mesmo tempo que ressaltou as dificuldades, Jesualdo lembrou a força do futebol brasileiro. Apesar de tudo, apaixonante, desafiador, grandioso. Disse que nenhum treinador recusa trabalhar no Santos, no Vasco, no Palmeiras. Mas a passagem pelo time da Vila Belmiro ainda ecoa em sua fala.

- Não foi digno a forma como as coisas aconteceram. A grande verdade é que o Santos tinha problemas que não era possível ninguém resolver – comentou ele, citando os atrasos e os cortes nos pagamentos, os jogadores que saíram do clube e a crise política, que culminou no afastamento de José Carlos Peres da presidência.

Fonte: ge