Bap questiona empréstimo da Crefisa ao Vasco
O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, citou o empréstimo de R$ 80 milhões que o Vasco recebeu da Crefisa, ex-patrocinadora do Palmeiras, ao defender a transparência na criação de uma liga única. O dirigente questionou o acordo, que, segundo ele, abre uma brecha para que um mesmo dono tenha dois clubes no país.
A declaração foi dada nesta quinta-feira, durante a participação do dirigente na segunda edição do CBC & Clubes Expo, organizada pelo Comitê Brasileiros de Clubes, em Campinas.
— Flamengo sempre foi a favor de uma liga nacional. Isso é bom que seja dito para todo mundo. O que acontece é que, quando você vai se juntar com alguém, quando vai casar, vou criar uma metáfora aqui para todo mundo entender, o casamento na comunhão parcial de bens funciona assim: o que você tem é seu, o que você vai construir de novo vai ser dividido de igual maneira. Quando você casa com alguém, e esse alguém quer invadir o que você tem, o nome disso é desapropriação ou invasão. O Flamengo é contra isso, é uma questão de princípio, nada contra ou a favor da liga. É óbvio que o Flamengo é a favor da liga. A liga pode duplicar, triplicar o valor do dinheiro do futebol no Brasil.
E continuou:
— O problema, e o diabo mora nos detalhes, é que forma você vai fazer. Vamos falar, por exemplo, especificamente do caso de Palmeiras e Vasco. No mundo inteiro você tem legislações que não pode o mesmo dono ter dois clubes. "Ah, mas ali não tem propriedade cruzada". Claro que tem, e a legislação nacional é clara em relação a isso. Qual instituição financeira vai emprestar dinheiro para vocês e pedir como garantia o título da sua dívida? Quem faria isso? Só quem quiser tomar conta da sua casa. Só olhar o caso do empréstimo da Crefisa ao Vasco da Gama. Qual foi a garantia solicitada? Eu, se fosse banqueiro, pedia o estádio de São Januário, que é um ativo real, como garantia. Quem poderia pedir ações da SAF como garantia? Talvez quem queira assumir a SAF do Vasco. Acho que isso é muito claro e óbvio.
— Não vamos misturar as coisas. Quando falamos de Liga no Brasil, a Liga tem que existir em cima de propósitos, princípios e valores transparentes para todo mundo. O Flamengo não é contra a Liga, mas o Flamengo não vai compactuar com nada que ele ache que não seja correto, decente, ainda que outros clubes fiquem incomodados e se escondam atrás de subterfúgios de que o Flamengo é contra a liga. Isso é uma grande bobagem.
Bap também criticou a recuperação judicial do Botafogo após a SAF ter aumentado a dívida do clube:
— Entendo que a gente não pode ficar olhando para trás. No videoteipe todo mundo é genial. Mas o modelo precisa ser revisto. Vamos pegar esse exemplo (Botafogo). Posso estar equivocado na ordem de grandeza dos números, mas quando essa SAF foi constituída eram R$ 700 milhões de dívidas. Talvez eu esteja equivocado no número exato. Hoje, pelo que se lê na mídia, o valor é três vezes e meia maior que o inicial. Aí você pega a recuperação judicial, e está incluso a primeira parte da dívida que você entrou em tese para cobrir. Aí não cobriu a dívida antiga, fez R$ 1 bilhão e pouco de dívida a mais e agora um pacote único de reformulação. É aprender com isso.
— SAF é válido, importante, mas tem que ter limites e obrigações em contrapartida. Não pode dar um crédito, não cumprir com nada e sair ileso com isso. Temos exemplos que estão indo bem, como o Bragantino, o Bahia. O capital que vem para ajudar e cumprir com a palavra é sempre bem vindo. Quem não cumpre, tem que ser punido de maneira muito severa.
Outra crítica que o presidente do Flamengo fez foi em relação aos gramados sintéticos, reforçando a posição do clube em ser favorável à grama natural:
— Opinião do Flamengo sobre esse assunto é muito clara. O Flamengo entende que futebol de alto nível, e basta você ver as cinco maiores ligas de mundo, onde você tem campo de plástico? Vai montar uma Liga no Brasil para ficar maior, mais lucrativa e com campo de plástico? É brincadeira isso. Mas é preciso discutir essa situação dentro da CBF. Flamengo já fez sua consideração. Campo de plástico é uma forma de manter futebol vivo em países que passam oito, nove meses do ano debaixo de gelo. Aí a gente pega uma ideia dessas e traz para cá para ter custo menor de manutenção? Não é só por isso.
— É para ganhar dinheiro com show. Quem quer ganhar dinheiro com show, tem que mudar de segmento, vai fazer show. Quem quer ganhar dinheiro com futebol, com um futebol forte, devia defender campo natural de grama. Esse ponto de vista do Flamengo é claro e objetivo há muito tempo. Mas o Flamengo pode decidir sobre isso? Não pode. Se pudesse, já teria feito nesse sentido. Quem pode decidir é a CBF.
Antes de falar com a imprensa, Bap foi um dos convidados de uma palestra sobre a reforma tributária que vai deixar os clubes associativos com uma carga tributária maior do que as SAFs, por exemplo. Haverá uma Audiência Pública na Comissão de Esporte (CESP) na terça-feira, dia 28 de abril, para debater o impacto disso nas organizações esportivas sem fins lucrativos.
— Queria dividir algumas reflexões sobre o que a gente vive nesse momento no esporte no Brasil em particular. Se voltar 20 anos no tempo, arrecadava-se menos da metade do que se arrecada hoje, e a gente já ouvia dizer que tinha problema fiscal. Nesses 20 anos, a gente continua ouvindo a mesma coisa, os impostos continuam subindo, o dinheiro continua não dando conta de pagar as contas, e a gente não resolveu o problema fiscal do Brasil, de educação... Mas agora tem a certeza que tirando o pouco dinheiro do esporte a solução pode passar por aí. Isso é absolutamente inaceitável - comentou Bap.
— O esporte nacional tem vivido de algumas esmolas, de esmolas há alguns anos. Vou dar os termos claros. Agora estão querendo tirar a esmola da gente achando que isso vai pagar a dívida. Sabe o que vai acontecer? Vai acabar com o esporte nacional, e ano que vem vão inventar outra taxação sobre outro segmento. Temos uma série de problemas no Brasil, e tenho a convicção de dizer que tirar dinheiro do esporte não é um tiro no pé, é um tiro na cabeça. O esporte contribui em todas as etapas de formação do atleta e do cidadão - afirmou o dirigente do Flamengo.
Fonte: ge- SuperVasco