Zé Ricardo relembra bastidores de quando comandava o Vasco
Com a ascensão dos técnicos estrangeiros, alguns brasileiros estão buscando outros mercados para continuarem com a carreira em alto nível. É o caso de Zé Ricardo, que assumiu o Sporting Cristal, do Peru, no mês passado, após a saída de Paulo Autuori. A indicação partiu do próprio treinador, que se tornou um amigo de caminhada.
Autuori estava com os dias contados no clube peruano e, após a indicação, o acordo saiu rapidamente. A adaptação também foi fácil, já que o elenco está recheado de jogadores brasileiros, como Gabriel, ex-Mirassol, e Felipe Vizeu, ex-Flamengo.
Esse êxodo dos técnicos brasileiros não incomoda Zé Ricardo, pelo contrário, a chegada dos estrangeiros contribui para o futebol nacional. Porém, o treinador vê uma diferença no tratamento entre eles.
O que às vezes chateia o treinador brasileiro é o nível de tratamento que se dá para quem é da casa e para quem é de fora
— Zé Ricardo, em entrevista exclusiva ao ge
O principal objetivo neste início de trabalho, que Zé Ricardo espera que seja de médio a longo prazo, é a classificação para as oitavas de final da Conmebol Libertadores. Um problema e tanto, já que o Sporting Cristal terá pela frente o Palmeiras de Abel Ferreira.
— Entendo a qualidade do trabalho que é desenvolvido no Palmeiras, em todos os seus setores. Não é uma potência só brasileira e nem sul-americana, eu considero como uma potência até mundial, porque consegue jogar de igual para igual, inclusive nos campeonatos mundiais.
Do lado alviverde, o comandante ainda vai reencontrar um velho conhecido: Anderson Barros. O diretor de futebol do Palmeiras foi o primeiro a lhe dar uma oportunidade no futebol, na década de 90, quando Zé ainda era um jogador de futsal recém-aposentado. A relação, mesmo sem muito contato, continua pautada no carinho e respeito.
— A gente não se fala toda hora, mas percebe que quando se fala é com um carinho muito grande. Tenho uma estima gigante. Ele me convidou para o futsal do Flamengo e depois ele me levou para o Vasco, onde a gente fez uma campanha muito boa.
— Sempre que a gente tem uma conversa um pouco mais sensível, eu procuro saber opiniões de pessoas mais experientes no setor, e sempre busco o Anderson para bater um papo. Tem um tempo que eu não converso com ele, mas tenho certeza que vai ser um momento muito especial, reencontrá-lo, dar um abraço, porque gosto dele, gosto da família dele.
Na entrevista ao ge, Zé Ricardo explicou o coração dividido entre o Flamengo e o Vasco, falou sobre a ascensão dos técnicos estrangeiros no Brasil e lembrou resenhas dos tempos de Catar e Japão.
"Estudei economia e virei presidente do Banco Central"
Essa foi a analogia utilizada por Zé Ricardo para definir o sentimento de assumir o Flamengo como o primeiro clube profissional. Ele já estava na Gávea, mas cuidava do sub-20 e ainda tinha planos de se tornar membro da comissão técnica permanente antes de dar esse passo. Os problemas de saúde de Muricy Ramalho aceleraram o processo.
— Poucos são os treinadores que fazem a transição do juniores para o profissional e se mantêm muito tempo. Eu me considero um privilegiado e costumo dizer que é assim: como se tivesse me formado em economia e o primeiro emprego foi ser o presidente do Banco Central — brincou.
Depois de 11 partidas como interino, o Flamengo decidiu efetivar Zé Ricardo em julho de 2016. A campanha no Campeonato Brasileiro foi excelente, mas ficou um gostinho de quero mais na boca do torcedor, especialmente por conta da campanha do “cheirinho”, que acabou saindo pela culatra.
De acordo com o treinador, a força do elenco deve ser exaltada, mesmo que tenha perdido gás na reta final da competição. As (muitas) viagens podem explicar essa oscilação, já que o Flamengo mandou a maior parte dos seus jogos em Cariacica, no Espírito Santo. O Maracanã esteve fechado por conta das Olimpíadas e só voltou nas rodadas derradeiras.
Zé Ricardo também chamou para si a responsabilidade e comentou sobre a falta de experiência no manejo do elenco. Naquele momento, o Flamengo tinha nomes como Paolo Guerrero e Diego Ribas à disposição.
— Certamente pesou essa questão da distância, pesou a questão de ser o meu primeiro trabalho, pesou a questão de a gente talvez não ter uma quantidade de jogadores para mudar tanto. Realmente, nos momentos finais, a gente acabou perdendo um pouco de gás e não conseguindo chegar ao título. Mas ficou uma energia muito boa, um respeito gigante por todos aqueles que fizeram parte do plantel, por tudo aquilo que envolveu aquele ano e isso serviu certamente para que todo mundo evoluísse como clube e como profissionais.
Em 2017, Zé Ricardo viveu altos e baixos. Começou o ano como campeão carioca invicto, mas acabou sendo demitido pouco tempo depois, após campanha de eliminação na fase de grupos da Libertadores. Uma queda dolorosa que veio com o único resultado em nove possíveis, nos acréscimos.
Aquela eliminação precoce fez com que o time desandasse de vez, e Zé Ricardo caiu após derrota para o Vitória, em casa. Segundo o treinador, a conversa foi franca e até aconteceu um convite visando a permanência, como auxiliar de Reinaldo Rueda, o sucessor. Porém, o comandante preferiu dar novos rumos à carreira.
— Eu fui chamado pelo Rodrigo Caetano e pelo presidente na casa dele. Foi uma conversa bem franca, como tem que ser. O presidente ainda tentou fazer com que eu ficasse no clube, para assumir o auxiliar técnico do novo treinador, o Rueda, mas eu entendi que o meu ciclo ali naquele momento tinha fechado e que eu tinha que seguir a minha carreira, buscar experiência fora.
— Foram 16 anos de clube, 14 anos e meio de base, passando por todas as categorias, depois um ano e oito meses no profissional, muitas emoções, muitas positivas, outras nem tanto, como foi essa eliminação e também a saída. O Flamengo é onde eu fui criado, onde aprendi a trabalhar com excelência, onde eu tive valores muito fortes trabalhados, principalmente na categoria de base, onde você tem que ver o desenvolvimento dos atletas, ter um pouco mais de paciência, olhar mais para o futuro. Isso me fez um profissional melhor.
Trocou o Flamengo pelo Vasco
Assim como Bebeto, na década de 1980, Zé Ricardo saiu diretamente do Flamengo para o Vasco. O treinador hesitou, diante da gratidão que tinha pelo antigo clube, mas entendeu que o projeto do rival poderia lhe dar mais oportunidades de crescimento. Fora a reunião com Anderson Barros e a chance de dividir os corredores de São Januário com Eurico Miranda.
Na época, Zé Ricardo foi contratado para substituir Milton Mendes, em agosto. O Vasco sofria no início do returno, mas, em reviravolta impressionante, atingiu a zona de classificação para a Libertadores e, de lá, não saiu mais. No fim, conseguiu assegurar uma vaga na fase prévia da edição seguinte. Foi a última vez que o clube carioca disputou a competição continental.
O comandante revelou, no entanto, que faltou preparo ao Vasco para jogar a Libertadores. O problema não era o elenco, mas a saída de Anderson Barros trouxe dificuldades na montagem da logística.
— Eram muitos problemas políticos, eleição, tivemos muita dificuldade para nos organizarmos para jogar a Libertadores 2018, até porque mudou a direção, o Anderson (Barros) acabou saindo, não tínhamos quem decidisse a logística. Caímos na pré-libertadores, então a gente tinha que ir à Concepción, depois à Bolívia, não tínhamos nem logística, foi bem complicado, mas nos fechamos e conseguimos ali uma primeira passagem muito legal.
Clube com quem mais criou identificação na carreira, o Vasco contratou Zé Ricardo em 2021. A situação era bem mais complicada, já que a havia acabado de realizar campanha muito ruim na Série B e não subiu para a primeira divisão.
Nenê era a grande estrela daquele time, e Zé Ricardo teve restrições para montar o elenco. Ninguém podia ganhar algo próximo do camisa 10, mas o treinador foi ao mercado, fez ligações pessoais e montou o time que viria a conquistar o acesso em 2022. O “problema” é que o comandante não estava lá para acompanhar, já que recebeu proposta do Japão e deixou o clube.
— Conseguimos fazer uma competição de Copa do Brasil justa, passando das duas primeiras fases. Naquele momento parece pouco, mas deu um respiro financeiro para o clube. Começamos o Campeonato Brasileiro com essa expectativa de subir, não tinha outra forma. Eu lembro muito bem que tinha Cruzeiro, Bahia, Vasco e Grêmio, era a Super Série B. Ainda tinha o Guarani, que já foi campeão brasileiro.
— Mas o grupo foi sendo montado, eu liguei para muita gente. Fiz questão de ligar para os atletas, convidá-los e mostrá-los que a gente ia passar por dificuldades. A gente não ia ter privilégios financeiros no clube, mas certamente teria uma equipe que representaria muito bem a camisa do Vasco e uma camisa também para todos eles poderem se projetar na carreira.
Culturas diferentes
Além do Japão, no qual representou o Shimizu S-Pulse, Zé Ricardo também frequentou o futebol do Catar. Por lá, ele vivenciou uma situação inusitada: desceu para o vestiário e encontrou seus atletas, titulares e reservas, rezando. Era o período do Ramadã, sagrado para a cultura muçulmana, tão presente no Oriente Médio.
— Durou por volta de cinco, sete minutos, eu tive muito pouco tempo para falar, mas até o próprio jogo acaba atrasando um pouquinho no intervalo quando tem. Eu até registrei esse momento, que para mim foi uma coisa que me chamou muita atenção, a crença que eles têm na religião, e o fato deles, inclusive na hora do trabalho, exercerem a religião deles com tanta fé.
Na Terra do Sol Nascente, Zé se sentiu em casa, tanto que fez uma previsão ousada. Dentro dos planos do futebol japonês, está ser campeão da Copa do Mundo até 2050, e o treinador acredita que o fato se concretizará.
O treinador explicou que o respeito move os japoneses. Dificuldade por lá só no início e muito mais na culinária do que por outro fator. Zé sofria por não entender japonês, mas passou a apreciar os pratos com o tempo.
— O que mais me chamou a atenção foi a educação do povo, da torcida, o respeito aos profissionais, o respeito ao jogo. Eles não só amam o jogo como respeitam o jogo. Você vê um jogo de futebol japonês hoje, você não vê a cera, não vê um jogo parando o tempo todo, artimanhas, nada disso. É um jogo jogado e, por isso, muito agradável, Além de ter a velocidade que já é característica dos esportes orientais, tem muita qualidade técnica, já que eles investem muito na formação. Eu tenho certeza que a seleção japonesa vai fazer um grande mundial.
Antes de aceitar o convite do Sporting Cristal, o treinador quase retornou ao Japão. Ele também teve propostas do Brasil. Nesta terça-feira, tentará a épica contra o Palmeiras, a partir das 19h, em Lima.
Fonte: ge
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