Vascaíno, Isaque Neube viraliza na internet com seus vídeos

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Ele não será eleito o próximo aiatolá do Irã, muito menos o atacante convocado por Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo. E faz questão de explicar isso, com todos os detalhes possíveis, aos pais em cada vídeo que publica na internet. Isaque Neube conquistou as redes com um vasto repertório que vai de história e geopolítica a música e esportes — sempre com uma constante: o amor pelo Vasco.

O estudante de Direito já sonhou em cursar Astronomia — para entender o universo —, Medicina — para salvar vidas —, Economia — para administrar a taxa Selic — e Urbanismo — para sumir com as fiações das capitais brasileiras e embelezar as ruas. Foi, porém, nos vídeos para as redes sociais que encontrou seu caminho. Quem já assistiu a algum conteúdo de Isaque sabe como é difícil definir o novo fenômeno da internet.

— Eu achava que tinha nascido para tirar os fios das cidades, igual Nova York fez depois da grande nevasca do século XIX. Acho que deixa tudo mais feio, abaixa a autoestima dos moradores. Ainda preciso fazer um estudo sobre isso — analisou, antes de completar:

— Como eu me defino agora? Um estudante de ciências sociais e jurídicas, um grande entusiasta de jazz e alguém que cria e posta vídeos porque vê nisso uma ação sociológica de contato com o público. Me vejo como comunicador e um apaixonado pelo Vasco.

Os vídeos

Fenômeno nas redes, Isaque soma cerca de 600 mil seguidores entre Instagram e TikTok. Apesar do tom bem-humorado, ele rejeita o rótulo de humorista. Os vídeos que mais viralizam são aqueles em que aparece cantando jazz, bossa nova ou o hino do Vasco — além, claro, dos quadros em que explica aos pais por que não está envolvido em algum grande assunto da atualidade.

Não faltam exemplos. Em um dos mais recentes, acorda os pais para avisar que não teve envolvimento com a queda de Constantinopla.

— Um dos que mais viralizou foi quando publiquei um vídeo cantando e escrevi: “essa é para quem disse que um vascaíno, morador de Magé, portador de doença falciforme, não pode cantar ‘Unforgettable’, de Nat King Cole, no banheiro do quarto andar da UFRJ”.

As legendas longas viraram marca registrada.

— Elas trazem um tom de comicidade. Ali, consigo colocar elementos centrais da minha vida. É uma forma de as pessoas me conhecerem. Quero que saibam que sou Vasco, portador de doença, filho de mecânico e de dona de brechó — disse.

Com conhecimento que transita por diferentes áreas, Isaque chama atenção pela facilidade em falar sobre praticamente qualquer tema. Em um único encontro, é possível ouvi-lo discorrer sobre cultura pop, memes, arquitetura urbanística, história de povos e até cinema italiano.

— Desde pequeno, sempre gostei muito de ler. Tinha fascínio pela Wikipedia. Ficava horas no computador. Depois, fui para os livros. Sempre gostei de falar e de ter repertório. Isso me levou a me aprofundar em diversos temas.

A mãe, Cristina, diz que ele sempre foi diferente dos irmãos — até mesmo antes do nascimento.

— Na gravidez, eu nem sabia que estava grávida no início, e o médico quase cauterizou um sangramento — lembrou Cristina.

— Quase cauterizaram uma lenda — brincou Isaque.

— Ele sempre foi diferente. Desde cedo dizia que não queria trabalhar na oficina. O pai sempre incentivou os estudos, a aprender outra língua. Ele estudou quase sempre em escola pública, só dois anos em particular porque uma professora disse que ele estava muito à frente. Às vezes, fazia perguntas que nem a professora sabia responder. Ele é superdotado — completou a mãe.

O amor pelo Vasco e a história da família

Por trás do influenciador, há uma história familiar marcada por luta e superação. Francisco, pai de Isaque, perdeu a mãe aos quatro anos, teve uma relação difícil com o pai e os irmãos e sofreu com violência. Saiu cedo de casa, em Fortaleza, e recomeçou a vida em São Paulo.

Foi na capital paulista que Francisco conheceu dois pilares que marcariam a vida do filho: a religião e o Vasco.

— Em São Paulo, meu pai viu o Dinamite jogando pelo Vasco em um campo perto do Edifício São Vitor, que foi demolido. Ele viu o Dinamite jogando e gostou dele porque ele tinha um sorriso muito bonito, muito sincero. E por isso ele virou vascaíno. Um vascaíno em São Paulo. Isso foi uma válvula de escape para ele numa outra cidade — disse Isaque, que completou:

— Outro refúgio que foi o principal foi a religião. Quando meu pai tinha 12 anos, o irmão dele queria que ele começasse a beber, fumar... e meu pai fugiu para a Igreja. Na praça da Sé ele foi abordado por um fiel. Ele se sentiu bem, começou a chorar e entrou para a religião. Pela fé, ele foi expulso da casa do meu tio. Então, ele procurou emprego, tornou-se mecânico e seguiu a vida sozinho, até formar minha família.

E a família de Francisco só tem uma integrante que não é vascaína: a mãe de Isaque, que é botafoguense. Mas Cristina faz questão de torcer para o Vasco pelo filho. Um dos momentos mais marcantes foi a recente final da Copa do Brasil. O estudante de 22 anos se emocionou ao lembrar dos jogos contra o Corinthians, em que ele pode lembrar de momentos da infância em que viu o time do coração campeão ao lado de seu pai.

— Para quem é vascaíno pós-2000, título vira quase uma reação de criança. Porque outros torcedores de clubes tiveram essa reação quando eram crianças. Somos adultos e não tivemos ainda. Quando o Vasco foi para a final, eu e meu pai pulamos na sala, naquele momento eu me vi uma criança de quatro anos pulando com ele igual uma criança.

— Dentro de mim parece que ressuscitou uma coisa que não estava mais, sabe? Não era o Isaque de 22, era o Isaque de 4 anos. Os jovens de outros clubes tiveram essa reação criança. Eu tive uma reação muito infantilizada mesmo, muito boba. Não foi eu reagindo, foi eu criança. Aí tem uma frase que está se tornando clichê, mas não é porque é clichê que é mentira: "A infância é um terreno que a gente pisa a vida inteira".

Entre as maiores lições que o Vasco deu a Isaque, estão a resiliência, a fidelidade e a lealdade. A resiliência de um garoto que todos os dias luta contra a doença falciforme do tipo SC, doença genética hereditária que o faz sempre estar em tratamento. Resiliência também de um garoto que superou a perda precoce do irmão Felipe, que morreu antes de Isaque completar cinco anos.

— E o meu estágio em Direito foi muito importante porque ressignificou uma data muito importante para mim. Eu comecei o meu estágio no dia 30 de outubro de 2025, dia em que se completava 18 anos do enterro do meu irmão Felipe, que faleceu vítima de dengue hemorrágica.

— Essa é uma das tristezas mais insanáveis da minha vida, porque ele não vai ver o meu sucesso. Não há nada nesse mundo que vá fazer ele ver meu sucesso. Por mais que eu conquiste céus e mares, vai ter sempre esse vazio. Ele teria 30 anos se fosse vivo. Mas agora encaro a data também como um renascimento. Assim que eu saí do estágio.

Ao ser perguntado sobre o que era o Vasco para Isaque, o garoto se emocionou:

— É ser fiel independente das circunstâncias. O Vasco treinou em mim a virtude da fidelidade e da lealdade. Você pode estar no limbo, mas eu estarei com você, porque quando você estiver na glória, eu estarei com você. O Vasco me ensinou a ter a relação com as pessoas independente do que elas tem, mas pelo que elas são. O Vasco é um clube pioneiro no combate ao racismo, ao classismo, ao elitismo, é um time pioneiro no combate a uma série de discriminações, é um clube que tem torcedores apaixonados, não pelo time, mas pelo clube, porque eu não torço pelo time Vasco da Gama, eu torço pelo clube Vasco da Gama. O time passa, o time é efêmero. Mas o clube é eterno.

— O Vasco me ensinou a tirar valores para a minha vida. Meu pai poderia simplesmente, como ele fez, ter me ensinado a ser uma pessoa leal, mas ele me deu uma tarefa de vida: ele me deu uma camisa do Vasco. Ele fez mais do que palavras, ele me ensinou na prática

Declaração ao Vasco

E é claro que Isaque também tem muito conhecimento da história do Vasco. O influencer citou que um se seus maiores sonhos é ter um gato sphynx, raça que não tem pelos, e chamá-lo de Candinho, em homenagem ao presidente histórico do clube.

— Meu sonho é ter um gato sphynx, é difícil encontrar, e também precisa de um cuidado maior porque não tem pelagem. Eu queria um que fosse marronzinho ou cinza. Queria colocar o nome dele de Candinho, em homenagem ao seu Cândido, primeiro presidente negro de um clube do Brasil.

— Quando alguém perguntar “por que Candinho?”, vou poder contar a história do Vasco. E, se for flamenguista, tentar converter — brincou.
A herança do amor pelo Vasco não será apenas para o próximo pet de Isaque. Os sobrinhos do jovem já levam consigo a história do clube por todos os cantos. Eles serão capazes de contá-la como o tio já faz.

— Meu sobrinho pegou amor pelo Vasco quando ele foi rebaixado. Um de três anos, está começando a aprender a falar e uma das poucas palavras que ele sabe falar é Vasco. Ele nunca viu o time jogar direito, mas ama. O de 10 anos sabe da história do clube. Pode não saber história do Brasil, mas sabe dos Camisas Negras, da Resposta Histórica. Isso é transcendental. Com todo fair play, não vejo isso em nenhum outro clube.

Faculdade de Direito e os sonhos

Em seus vídeos de humor, Isaque conta que a faculdade de Direito o atrapalha em uma série de coisas, como na luta para ser o próximo Papa da Igreja Católica, novo governador do Rio de Janeiro ou o rei de Tonga. Sobre a faculdade, Isaque afirmou que não quer ser advogado, mas a profissão já o ajuda no meio empresarial para não ser passado para trás em contratos.

— Eu gosto do Direito, a matéria me dá um acervo de estudo muito grande, formalizado academicamente, e me dá a vontade de entender esse mundo de contratos, se eu estou sendo passado pra trás ou não.

— Mas o Direito vai ser aquela coisa que eu tenho o diploma, como Emílio Santiago tinha e nunca exerceu. Como Carlos Alberto de Nóbrega, Clarice Lispector, Jorge Amado. Todos estes se formaram e não ficaram conhecidos por serem advogados. Eu também não quero ser advogado.

Isaque é apaixonado por cantar e tem um talento nato na música, dentro ou fora do personagem que é capaz de cantar o hino do Vasco como uma legítima estrela do jazz. Mas talvez o maior talento de Isaque seja ter o poder da observação e da comunicação. O garoto foi capaz de encantar todos que o conheceram na redação do Esporte da Globo, ao ser solícito e gravar vídeos personalizados para cada fã que o parou enquanto a entrevista acontecia.

— Eu sou apaixonado por cantar. O meu grande sonho de vida é conseguir ser um grande cantor de jazz ou bossa nova; ou um apresentador de programa de televisão, apresentar um programa de viagem, estou muito com isso na cabeça. Ir em países pouco conhecidos como Malawi, Curaçao. Ver o dia a dia dos moradores, ir em um ambiente local. Eu vejo muita sociologia no cotidiano.

Isaque se demitiu do estágio em Direito para focar no que gosta de fazer. A fonte de renda do garoto, que aos poucos também virou a fonte de renda da família, vem dos vídeos e das publicidades.

— Aquilo que falei para a minha avó se cumpriu. O dinheiro que eu ganharia de todo o meu estágio já está vindo. E ele está vindo através da minha arte.

Fonte: ge

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