Mazinho fala sobre seu amor pelo Vasco
Num dia, Mazinho tinha 16 anos. Apesar de atlético, parecia um cabide, com os ossos para fora, de tão magro. Subiu num ônibus sozinho e saiu de Santa Rita, na Paraíba, para testes no Vasco, seu time do coração.
O ano era 1983, quando ele perdeu o pai à distância e foi para o Rio. Uma década depois viveu um sonho muito mais distante do que as 42 horas de ônibus percorridas até a capital fluminense ao conquistar o mundo com a seleção brasileira na Copa de 1994.
Em 1h10 de Abre Aspas, o tetracampeão conta histórias saborosas sobre a vida na Nordeste, as agruras da chegada de um paraibano ao Rio e da trajetória num espelho às vésperas dos 60 anos. Mazinho sente falta de camisas 10 no futebol brasileiro e vê falta de material humano para Ancelotti na Copa do Mundo.
— Acabaram nossos 10, nossos extremos, nossos centroavantes. São muito poucos. Falta muito jogador, falta muito para melhorar essa Seleção, penso eu. E eu acredito que o Ancelotti vai tentar fazer isso. Porque vai ter que fazer - disse ao falar sobre a Seleção.
Ficha técnica:
- Nome completo: Iomar do Nascimento
- Nascimento: Santa Rita (PB), em 8 de abril de 1966
- Carreira: Vasco, Lecce, Fiorentina, Palmeiras, Valencia, Celta de Vigo, Elche, Alavés e Vitória.
- Títulos: bicampeão carioca (1987 e 1988) e campeão brasileiro pelo Vasco (1989); bicampeão paulista (1993 e 1994), Rio-São Paulo (1993) e brasileiro pelo Palmeiras (1993); na Seleção, campeão da Copa América em 1989 w do mundo em 1994; medalha de prata olímpica em 1988. Foi eleito em 1987, 1988 e 1989 para a Bola de Prata da Placar. Eleito para a seleção da Copa América em 1989.
ge: Você vai fazer 60 anos dia 8 de abril. Pensa muito no tempo que está passando?
Mazinho: — Penso muito. Porque está passando muito rápido. Era ontem e eu cheguei aqui, tinha 16 anos, tentando fazer a minha vida como jogador de futebol. E hoje, olha só, como passou rápido! Vou fazer 60 anos agora.
Você pensa que conseguiu muito mais do que sonhou que alcançaria?
— Até hoje eu vivo o momento. Não faço planos para nada. Vou sempre aproveitando as oportunidades, tentando agarrar da melhor maneira possível. Acho que desde o início foi assim. Eu tive a oportunidade de vir jogar num time que um dia eu sonhava em jogar. Nunca tinha essa esperança, mas sonhava. E aconteceu, desse sonho ser realizado, de vir ao Vasco da Gama já com 16 anos. Então tudo foi momento e você vai aproveitando cada momento da sua vida da melhor maneira possível.
Sair de Santa Rita com 16 anos representava que tipo de desafio?
— Era um desafio de todos os lados, porque um paraibano naquela época era muito complicado ter essa oportunidade de sair. Ter alguém que te levasse para você tentar realizar um sonho. Não é como hoje que você tem 500 mil olheiros para levar jogadores para todos os lados. Naquela época, era uma solidão de poucos jogadores que tinham essa oportunidade. De alguém olhar para você e falar: "acho que esse garoto merece a oportunidade". Acho que foi como ganhar na loteria naquele momento. É uma viagem de ônibus, de 42 horas, para fazer esse teste maravilhoso que a gente fez aqui no Vasco. E valeu a pena, claro que valeu a pena.
Por que você acha que conseguiu sucesso? Já li você falando que tinha frieza para jogar seu futebol.
— Eu acho que não é questão da frieza em si. Era mais uma forma de falar. Era o momento que você tinha que aproveitar. Tinha 16 anos, jogando no time da minha cidade, o mais jovem na seleção paraibana, com 16 anos no Rio para fazer os testes e sabendo que o meu objetivo era não voltar de ônibus outra vez. Enfrentar de novo a estrada de 42 horas. Mas o objetivo era ficar, passar no teste, pensando no profissional. Era juvenil. Então acho que a frieza era mais do objetivo que você tem e aproveitar da melhor maneira possível.
Como era o Rio de Janeiro quando você chegou?
— Ah, era maravilhoso. Você andava de São Januário ao Maracanã, passando pela Quinta da Boa Vista, todo mundo andando para ver jogo do Vasco. Ia e voltava todo domingo. Hoje em dia é impossível você ter essa liberdade de poder sair ou caminhar em qualquer lugar aqui do Rio. Era um tempo muito tranquilo. A gente frequentava a Barreira do Vasco, o morro do Tuiuti. A gente andava tudo aí por dentro, com os amigos, as amigas também. Era uma maravilha, foram anos maravilhosos.
Quem era a tua turma?
— Éramos eu, Lira, Aílton, Lula, Souza, Milton Mendes, era mais gente que vivia dentro da concentração. Tempos diferentes, de muita besteira também que a gente fazia. Todos jovens (risos).
Teve deslumbramento com o Rio, com a noite?
— Não, não porque eu não era muito dessa coisa de noite. Eu era mais focado no que eu queria em relação a conseguir objetivo, me firmar no Vasco. Nunca fui de ficar muito tempo na noite. Quando me tornei jogador profissional, já acompanhava a rapaziada. Você vai na onda, mas eu tinha um limite, sempre tive um limite na minha cabeça. Ainda mais quando jogava. Dava uma certa hora que despertava e tinha que voltar para casa. Sempre fui dessa forma.
Você teve aquela fase do jogador que vem de longe e quer jogar tudo para o alto e desistir?
— Passei, passei... Hoje a gente chama de outra forma. Quando cheguei tudo era "o paraíba", era uma loucura dentro da concentração. Naquela época "o paraíba" era muito falado no sentido contrário. Todas as besteiras, todos erros, era "o paraíba, o paraíba"... Tinha saudade de casa. Dos amigos, da namoradinha, da vidinha que você vivia lá fora e aqui dentro tendo todos esses sacrifícios que você tinha que fazer e aguentando coisas que não deveria. Isso fazia com que realmente pensasse duas vezes em voltar.
Está falando de bullying?
— Bullying. Isso. (Risos) É uma palavra muito forte, mas era mais ou menos isso. Sempre foi assim. Do Nordeste, tinha eu da Paraíba, tinha outro de Maceió (Alagoas), mas eram poucos jogadores do Nordeste. Eram dois ou três, se muito.
Já te ouvi falando muito do Isaías Tinoco (ex-dirigente), do quanto ele foi importante. Por quê?
— Cara, o Isaías foi a pessoa mais importante, na realidade, na minha vida até hoje. Porque o Isaías foi o precursor da minha carreira. Se não fosse pela decisão do Isaías, talvez eu não teria sido jogador de futebol. Talvez eu teria ficado jogando com meus amigos na Paraíba, jogando a um nível de lá e não tinha saído dali. Isaías, naquele momento, parece que ele lia sua mente, e sabia o que você pensava. Então agradeço muito a ele. Sempre falo com ele. Todas as vezes que venho aqui sempre estou falando com ele. Foi uma pessoa muito importante, a mais importante da minha vida em termos de carreira de futebol.
Não era comum nessa época, mas o Vasco tinha trabalho de psicologia ali nos anos 1980. Você ia?
— Não, eu não tinha muito... (risos) Era uma coisa muito particular, eram outros tempos também. Ajudava bastante porque ela (a psicóloga) já estava no futebol profissional. Depois que eu cheguei no profissional eu a encontrava, mas nunca parei para pensar ou dizer: "preciso falar com a psicóloga". Eu acho que só de falar com Paulo Angioni já te abria muito a cabeça, você já aprendia muita coisa dele. Ninguém ia para casa sem passar pela sala do Paulo Angioni para ter uma resenha com ele. E a resenha sempre foi maravilhosa. Outra pessoa também muito importante e que ajudou a gente a seguir nossa carreira.
Como eram as angústias desse momento de vida? Era o sucesso profissional, a família, ter dinheiro?
— Acho que tudo resumia em tentar ajudar a família, claro. Eu não podia trazer ninguém para cá porque meus pais já não podiam viajar, meus irmãos cada um seguia a sua vida. Mas lembro perfeitamente que eu ganhava na época, vamos dizer, algo como R$ 50 por mês, que era a ajuda de custo que o Vasco dava. E R$ 25 desse dinheiro eu colocava numa carta e ia lá no pavilhão de São Cristóvão, onde tinha um correio, colocava dentro de uma carta e mandava para a Paraíba. Porque eu achava que estava cumprindo a minha parte. Eu sabia a dificuldade que a gente tinha em casa também. Eu achava que esse pouco era muito para mim. E tentava ajudá-los de qualquer forma.
Você tinha sete irmãos?
— Sim, faleceram dois. Hoje somos cinco.
Quais os nomes?
— Olha, não dá para rir não (risos), hein. Em casa é tudo no I. O meu é Iomar. Então era Itamar, Iomar, Ionildo, Ivanildo, Iolanda, Iremar e Iolonildo. Somos sete irmãos e eu não sei o que tinha meus pais porque um se chama José e outro se chama Maria (risos). Mas no Nordeste antigamente era normal, a maioria das famílias era sempre a mesma letra. A minha rua era um com E, outro com I, outro com A. Era muita gente, muita criança e era diversão maravilhosa naquela época nas ruas.
O apelido Mazinho era desde criança?
— Mazinho era... Na realidade, meu apelido era Miga. Por ser na realidade muito fraco, muito magro. Eu lembro que eu cheguei no Vasco e os caras diziam que eu era como um cabide. Porque o osso daqui saía todo para cima, mas era por isso. É porque era por isso, se tornou Mazinho pelo diminutivo do que por outra coisa.
Teu pai era ferroviário?
— Era ferroviário. Era maquinista, na verdade. Andava no trem, viajava muito. Fazia aquela zona de João Pessoa, Santa Rita, todo esse percurso que fazia o trem.
Ele faleceu quando você era novo ainda?
— Faleceu justamente quando eu vim para o Vasco. Acho que no ano que eu vim para o Vasco foi quando meu pai faleceu, em 1983. Eu estava longe, estava na Seleção Carioca na época, estava no Cefan, na Avenida Brasil. E 2h da manhã chegou o Souza, um zagueiro que a gente tinha no Vasco, com o treinador, professor Valinhos. Eles me acordando para dar a notícia de que meu pai tinha falecido.
Você voltou?
— Não voltei, porque não podia voltar. Já tinha falecido, não dava tempo para pegar voo e chegar para o enterro. Voltei sim na minha mãe. Quando minha mãe faleceu foi em 1994, já no Palmeiras. No ano da Copa. Meu pai faleceu por problema de próstata, insuficiência renal.
Foi muito dolorosa essa distância.
— Complicado porque a gente nunca espera esse tipo de situação, ainda mais quando você está longe, muito tempo longe. Você quer às vezes buscar pelo menos o último momento para falar com eles. Mas com nenhum dos dois eu tive essa oportunidade. Com minha mãe eu voltei, consegui chegar a tempo para o enterro. Mas as últimas palavras, não.
Era tudo por telefone?
— Tudo por telefone, claro. Com meu pai era orelhão, a gente chegava no orelhão. Falava com ele assim, ligava para a casa do vizinho. O vizinho que chamava para poder atender. Nessa época era muito complicado em relação à comunicação.
Você era vascaíno mesmo?
— Sempre fui vascaíno. E não me pergunte a razão. Até hoje busco o porquê disso. Talvez pelo Roberto, acho que pelos gols que ele marcava. Talvez isso me chamasse a atenção e me tornou vascaíno. E quando surgiu a oportunidade de vir foi uma coisa maravilhosa. Você sai de uma cidade como Santa Rita, em que as oportunidades são muito raras de poder sair de um time tão grande quanto o Vasco, ainda mais para o time que você torcia. Então para mim foi um espetáculo essa situação né.
Como surgiram as primeiras chances?
— Cara, a gente morava na concentração em São Januário e todo treinamento estava sentado para ver os treinos do profissional. A gente ficava esperando para tentar pegar autógrafo, poder falar com os caras. Até hoje o Isaías me chama de Sombra, porque eu ficava sempre na expectativa já no juniores, que faltasse um para poder botar a gente para treinar. Eu já ficava parado na arquibancada com a minha chuteirinha. E sempre acontecia. Sempre acontecia de um jogador machucado não poder treinar.
— Acho que o polivalente era pela necessidade de jogar. Eu nunca reclamei de posição, nunca questionei se joguei na direita, se joguei na esquerda, se joguei de ponta, no meio... de centroavante. Isso nunca me preocupei. Importante era jogar, estar bem ali, mostrar as condições que você tinha e aproveitar as oportunidades. Eram muitos jogadores bons, então quanto mais variedade você tinha melhor o espaço para poder jogar.
Você gostava mais do meio de campo?
— Sempre fui meio-campo. Porém quando cheguei no Vasco fui jogar de ponta-esquerda, no juvenil. Eu fazia o quarto homem de meio-campo. No junior, já voltei para o meio-campo. No primeiro ano de profissional subi como meia. No segundo ano, contrataram o Dunga e eu fui para o banco. Em 1987. Paulo tinha falado para mim que eu tinha que jogar, tinha que jogar e no Vasco era muito difícil. Já tinha acertado praticamente com o Mogi Mirim quando surgiu a oportunidade de lateral-esquerdo. O Pedrinho e o Lira tinham se machucado, não tinha lateral-esquerdo. E não sei como, surgiu a oportunidade. Joel conversou comigo para jogar ali. A princípio falei que não, porque eu tinha acertado tudo com o Mogi Mirim. No final falei, não tenho nada a perder: "vou jogar". A partir daí, foi o meu melhor momento. Um dos melhores momentos da minha carreira no futebol. Cheguei na Seleção como lateral-esquerdo. E quando surgiu a oportunidade de jogar no meio, porque Dunga se machucou. Joel me perguntou, pensei duas vezes e disse: "não, sou lateral-esquerdo". E aí fiquei.
A ambidestria era dom ou treinamento?
— Era dom. Era assim desde pequeno sempre, não porque eu treinei, não porque eu praticava. Acho que era normal. Sempre fui muito coordenado. Eu sou de atletismo, eu sou de basquete, sou do vôlei, sou de todo tipo de esporte. Como são meus filhos também. (00:20:08) Nasceram e foram crescendo também com essa coordenação motora. O que para mim é muito importante. Acho que todo jogador que é bem coordenado, o esporte para ele, as posições, não têm problema. Como era assim. Nunca me preocupei.
— Na seleção sub-23, no Torneio de Toulon, depois do treinamento sempre eu ficava treinando trabalho de cruzamento com a perna esquerda. O Renê Simões era o treinador e exigia isso. Isso também me ajudou bastante. Claro que não é só você nascer com dom. Tem que praticar e isso acontecia muitas vezes na minha carreira.
No atletismo você treinava o quê?
— Eu fazia corrida de fundo. Eu era de meia maratona. Sempre corri de 7 km a 10 km, sempre competi. Isso lá na época de garoto.
Era muito magrinho?
— Aí que está, os africanos são os melhores porque são magrinhos, entendeu? (risos). Mesmo assim. Eu sempre saía para correr na cidade, dava a volta na cidade antes de ir para o colégio, sempre foquei no lado físico. Para mim era muito importante.
Isso por iniciativa própria?
— Iniciativa própria. Eu gostava, eu queria servir o quartel pela parte física. E nunca tive a oportunidade de servir o quartel. Já aqui no Vasco era impossível conciliar o serviço militar com o futebol.
— Corria com meu tênizinho, não era adequado, mas era tênis. Só calçar os pés e já podia correr. Era isso que a gente fazia a cada dois, três dias da semana. Era uma coisa que peguei de colégio. Antigamente, tinha os jogos escolares da Paraíba e você tinha atletismo, voleibol, futebol. Você podia escolher duas modalidades. Eu escolhei futebol e voleibol, mas o atletismo eu já fazia, porque já era natural nosso. Então eu competia sempre em época de colégio.
Vamos falar do seu primeiro grande título na carreira: o Brasileiro de 1989 com o Vasco. O Globo te deu nota 10 naquela final contra o São Paulo. Você lembra?
— Não, eu só lembro que eu passei a semana toda me preparando porque eu tinha um extremo muito difícil de marcar. Era o Mário Tilico. Mário a gente sabia... Jogou com a gente no Vasco. Era muito rápido e eu não era esse jogador tão rápido. Tinha que me mentalizar de uma forma que eu tinha que tentar pará-lo da melhor maneira possível. E assim foi, saiu tudo redondo para a gente em 1989.
— Tinha Bismarck, Sorato, Willian, Boiadeiro, Zé do Carmo. O Vasco tinha feito a melhor campanha e tinha a vantagem de fazer o primeiro fora para poder decidir em casa. E como a gente jogava por dois empates, com uma vitória já era suficiente. Foi o que aconteceu. Fomos para São Paulo, ganhamos com esse maravilhoso gol do Sorato e passamos toda a semana escutando dona Célia, que era a mulher que recebia os recado junto com o Paulo Angioni, toda aquela papelada, era o tempo todo a musiquinha do Vasco quando ligava.
Como era isso?
— É porque o sinal do telefone dela era o hino do Vasco. Então ela deixava. Então ela deixava, ela não te atendia, ela gostava que você fosse escutando o hino do Vasco. Sempre te atendia depois de muito tempo, está entendendo. Então era uma maravilha.
Isso era na concentração?
— Isso era lá em São Januário. Era na sala do Paulo Angioni, ela trabalhava lá. Ela e a Denise (outra funcionária do Vasco).
Foi marcante na sua carreira?
— Claro, a gente já tinha sido bicampeão carioca. A gente ganhou em 1987 e 1988. Mas um título brasileiro como a gente precisava e pelo tempo que o Vasco estava sem ganhar, para a gente foi muito, muito valioso esse título.
A sua primeira convocação foi quando?
— Foi em 1987 com o Carlos Alberto Silva. De lateral-esquerdo.
Em 1989, você é campeão da Copa América na direita. Você acha que teve uma trajetória linear na seleção brasileira?
— Tive menos chances do que esperava no início. Terminei a Copa América de 1989 como melhor lateral da América. A gente foi para 1990, Mundial da Itália, já com o time completamente preparado, mas infelizmente o Lazaroni tirou cinco jogadores desse time. Quer dizer, você tinha time que você passava pela direita aqui, você não precisava pedir bola porque a bola chegava. Era um time que a gente jogava e parecia que se conhecia muito. E se conhecia muito de verdade! Jogava de forma maravilhosa. Mas ao romper esse time tirar cinco jogadores... Mas é verdade que a gente teve um azar contra a Argentina. Poderia esse jogo terminar em 5 a 1, mas perdemos de 1 a 0. Perdemos gol para caramba. Mas ficou fora desse time Aldair, eu, Silas, Bebeto e Romário. Quer dizer, tirou cinco jogadores da Seleção que custa muito você formar e, de repente, pelo azar que tivemos ficar de fora nas oitavas contra a Argentina.
Esse entrosamento é bem nítido no gol do título contra o Uruguai.
— Isso, são tabelas que a gente têm. São jogadas que a gente faz. E surge a oportunidade. Antigamente todos laterais dobravam muito por estar jogando na frente do extremo, do meia que caía ali, do centroavante que caía ali. Porque o objetivo era sempre cruzar né. Era sempre chegar e terminar a jogada.
— Esse jogo contra o Uruguai, no Maracanã, foi maravilhoso por isso. Foi uma jogada muito boa com o Bebeto, Bebeto deixa para mim, eu tive a oportunidade de cruzar e o Romário conseguiu antecipar e marcar o gol do título depois de 40 anos.
Eu perguntei como era o Rio de antigamente. Mas e o Maracanã, como era o Maracanã de antigamente na sua vida?
— Cara, o Maracanã, a primeira vez que entrei no Maracanã, a gente ficava rolando na sala de aquecimento. Deitado mesmo, deitado, rolando, porque a gente não acreditava. Isso foi a primeira vez no junior, na final que a gente fez em 1985, Vasco x Flamengo, que a gente ganhou de 3 a 1, mas no vestiário, para fazer o aquecimento, todos nós, não só eu, a maioriada garotada todos se jogavam no chão. Porque, cara, era o Maracanã! E quando entra é aquela loucura toda que a gente via, porque era uma das maiores torcidas que a gente tinha ali. Um estádio completamente abarrotado, completamente cheio, em final de Fla-Flu, e a gente fazendo a preliminar. Então era uma coisa de outro mundo. A gente entrava em campo e ficava olhando para cima. Vendo tanta gente ali, vendo esse público maravilhoso. E não sentimos, não sentimos.
Via o Maracanã pela TV quando era pequeno?
— Não tive essa oportunidade. Escutava pelo rádio, a gente não tinha nada de TV (risos). Sempre acompanhava os jogos pelo rádio e era esse momento assim... O Maracanã você nem sonhava, não imaginava como era.
— Era bem diferente, com a capacidade que tinha. E hoje, eu te digo que ainda prefiro o antigo. Acho que era histórico, era maravilhoso, ver 30 mil pessoas em pé ali na geral. Era uma coisa absurda, mas... era necessário.
Na Copa de 1990, houve comentário que tinham que ter feito a falta no Maradona, mas respeitaram muito ele. Você lembra disso?
— Isso não existe. Você é companheiro de clube, seleção é diferente. Ainda mais contra a Argentina, que sempre teve uma rivalidade muito grande. Já de muitos jogos, já da Copa América, que também foi muito complicada. Eliminamos os caras nas semifinais também, por 2 a 0, num jogo também bastante violento. Não, não tem amizade, amizade era de clube, quando está fora, mas em termos de Copa do Mundo, cada um tem seus interesses, cada um defende o seu lado.
— Tudo isso nunca existiu. Ter jogado com você num time e fazer corpo mole para não machucar, dar uma entrada. Isso não existe.
Angioni me contou numa entrevista que o Careca sofreu muito depois daquele jogo de 1990. Lembra?
— Claro que sofreu, porque Careca teve mil e uma oportunidades de marcar e não marcou. Alemão também sofreu muito porque todo mundo falando que era culpa do Alemão, porque não chegou no Maradona, porque era amigo dele no Napoli. Quer dizer, até a gente que estava fora no banco, a gente também sentiu muito isso. Era muito precoce essa eliminação. E pelo jogo como foi. Como falei antes, poderia ser 5 a 1, 6 a 1 e acaba indo para casa com derrota de 1 a 0.
Essa Copa vocês consideram aprendizado para 1994?
— Foi a melhor coisa que aconteceu para a gente para 1994. Foi um ensinamento, vamos dizer assim, de tudo que a gente passou de publicidade, de direitos de imagem, da mão que a gente coloca em cima da marca patrocinadora do momento. Os jogadores terminaram o Mundial como mercenários. Treinador não voltou, Lazaroni não voltou, já foi direito para a Itália. Quando chegamos aqui já era confusão muito grande.
— E para 1994 foi tudo diferente. Porque a maioria desse grupo de 1994 estava em 1990. E a primeira coisa que a gente falou foi: a gente não quer saber de dinheiro, a gente quer ser campeão. Não queremos discutir prêmio, não queremos discutir nada. Qual valor? Valor é esse, então vamos trabalhar e vamos conquistar. E assim foi. Graças a Deus deu tudo certo para a gente nesse sentido.
Estamos de novo há 24 anos sem conquistar. A gente fala muito de pressão no futebol. Consegue materializar o que era essa pressão? Era no olhar entre vocês, era na torcida, na imprensa?
— Cara, era mais torcida e imprensa. Entre a gente não tinha pressão não. A gente sabia a responsabilidade que tinha, a gente abraçou a responsabilidade. A gente sabia o que a gente queria, sabia o que poderia chegar. A mudança tática que fez o Parreira com o Zagallo. O Brasil nunca jogou um 4-4-2, Brasil toda a vida jogou num 4-3-3. Puro e duro. Sempre jogou assim. Parreira e Zagallo tiveram que pensar numa formação de jogo para igualar praticamente a forma tática dos europeus, porque sabia que tecnicamente poderíamos ganhar. Fizemos um time bastante forte defensivamente, mas ninguém era ruim tecnicamente. Todo mundo jogava, quando a bola estava no pé todo mundo jogava. Trabalhamos para Bebeto e Romário terem sua oportunidade para marcar os gols. E foi o que a gente fez nesse Mundial.
— Eu chego dois meses antes da convocação final. Eu chego pelo jogo do Palmeiras contra o Boca Juniors. Nesse jogo foi onde eu voltei para a Seleção. Mas esse período de dois anos do Parreira com esse time, eu nunca tinha entrado. Entrei já na reta final, em abril se eu não me esqueço. Se não me falha a memória, em abril que eu entrei, que foi o famoso jogo de Brasil x Argentina, em Recife. Que foi a maior pancadaria que até hoje a gente vê isso nas redes sociais, esse jogo. Ali se tivesse o VAR hoje, só ficava os goleiros. Esse jogo a gente ganhou de 1 a 0 ou 2 a 0 em Recife, um jogo amistoso. Mas foi muito violento esse jogo. Só tive esse jogo com a seleção brasileira, já na reta final da convocação, e eu estava dentro.
Quem concorria contigo?
— Cara, teve tantos jogadores, porque é um período de testes. Teve Palhinha, que eu me lembre, desses meias da minha posição, tinha Raí... Quer dizer, foram vários jogadores que passaram que eu nem preocupo. Eu estava jogando na Itália nesse momento, logo vim para o Palmeiras, e esse ano do Palmeiras coincidiu com a chegada do Parreira com o Zagallo na Seleção. Foi o período de 1992 a 1994, foi quando eu estava chegando no Palmeiras.
Palmeiras tinha um timaço, com Rincón ali do seu lado. Vocês conversavam sobre Copa?
— Com Freddy, não. A gente tinha essa amizade de clube mesmo, de seleção dificilmente se falava. É o que eu falei, quando você chega é uma coisa, quando está na seleção é outra coisa. Os papos são diferentes. A resenha é diferente. Com Freddy era mais focado no Palmeiras, porque era um excelente jogador. Com aquele pé que botava apoio no chão que ninguém conseguia derrubá-lo. Mas era um espetáculo de jogador.
— Dessa posição foi um dos melhores. Era um cara que te dava segurança muito grande, era um cara que ajudava bastante também em termos defensivos. Em termos de grupo era perfeito, um cara maravilhoso.
Vocês, campeões em 1994, sempre reagiram a quem dissesse que era um futebol burocrático. As críticas machucaram?
— A gente é campeão do mundo, cara, não tem que dizer mais nada. Mas tudo isso aí foram situações que iam passando porque estavam acostumados com futebol bonito. A gente tinha seleções de 1982, 1986, não resta dúvida, para mim uma das maiores seleções que vi na vida. Mas não tinha resultado. E os caras foram para o resultado. A gente já estava 24 anos sem ganhar um título.
— A gente tinha que fazer alguma coisa. E essa mudança foi brutal para isso. Eu muitas vezes não concordo com o Romário. Porque o Romário diz, “não, que a seleção era ‘normalita’”. Eu digo, “não, cara, a gente jogava”. O Dunga foi muito feliz quando disse: a gente nunca atrasou uma bola para o Taffarel. Ninguém atrasava a bola para o Taffarel, todo mundo jogava. A gente pegava a bola e tentava chegar para o Romário e o Bebeto mais limpa possível. E o trabalho sujo a gente tinha que fazer ali atrás. Porque os dois ficavam ali na frente a gente tinha que fazer o trabalho sujo. Quer dizer, chegava sempre bola limpa para os caras. Então a gente sempre teve seleção de toque também. A gente não perdia bola fácil também. A gente tinha trabalho muito bom, uma organização tática muito boa e assim a gente foi chegando pouco a pouco em cada classificação das fases do Mundial.
Como é a história que você foi o jogador mais bonito da Copa?
— Isso, fui eleito (risos). Eu botei o Raí no banco. Um comediante amigo meu lá da Paraíba chegou para mim e disse: “você sabia que você foi eleito o jogador mais bonito da Copa?” “Está maluco, cara?” “Sim, você botou o Raí no banco”. Só você mesmo, cara (risos). Foi uma forma de risadas.
Parreira já tinha te testado antes da Copa ali, certo?
— Ele me botou no meio, fiz alguns testes no meio, mas nunca imaginei que eu poderia substituir o lugar do Raí, porque ele o nosso capitão. Estava numa fase maravilhosa em toda Eliminatórias, marcava os gols sempre. Mas chegou no Mundial e acho que Parreira e Zagallo viram que taticamente podia fechar mais o meio de campo, ser mais defensivo, organizar mais e deram essa oportunidade de poder jogar e abracei da melhor maneira possível.
Lembra com quem você falou depois de ganhar a Copa?
— Eu lembro que estou arrependido até hoje porque entreguei minhas camisas todas para tanta gente. Eu não deveria ter entregado (risos). Já nem sei onde estão essas camisas mais e eu fiquei com poucas camisas. Eu só tenho duas camisas hoje, uma azul e uma amarela, a que eu joguei a final e a do jogo anterior. Mas o restante... a gente recebe todo ano camisa da CBF, o que é importante, como aniversário, de presente, com nome e número, isso é gratificante, agradeço muito por isso.
— Às vezes falo com os familiares, “e aquelas camisas que eu entreguei?” Tudo já está vendida, cara... Virou leilão na internet (risos).
Você mora há muito tempo fora né?
— Desde 1994 que eu fui para a Espanha e fiquei. Voltei em 2001, fiquei curto período para encerrar a carreira. Aí fiquei morando no Rio mais três anos, mas em 2003 eu voltei. Já tinha deixado minha casa preparada na Espanha, se eu me adaptasse bem ou não. Mas a vida corrida que eu tinha aqui e a tranquilidade que a gente tinha lá... então três anos depois eu voltei para a Espanha e estou até hoje lá.
Vejo que é muito comum você misturar os idiomas...
— Sempre, às vezes, escorrego por aí com o espanhol. E quando estou lá eu só falo português (risos). Com meus filhos sempre português, mas quando quero falar espanhol, muitas palavras saem em português também. Então eu falo em português. Igual com amigo meu italiano. Eu estava falando italiano, português e espanhol. Numa frase, três idiomas. Complicado. Mas são parecidos também. E isso enrola muito a gente (risos).
Sente saudades do futebol?
— Eu não sinto saudade, não. Eu lembro de tudo, mas saudade, não. Eu acho que aproveitei o momento, curti muito o futebol, desfrutei da melhor maneira possível. Mas eu não sinto saudade, não. Tem momento que a gente gosta de ver. Por exemplo,eu tenho até hoje gravado os dois gols que fiz contra o Botafogo, no Maracanã, que eu nem imaginava. Foi uma gravação que fiz com vocês, falando da minha vida. Aonde eu cheguei e segui o caminho.
— E quando mostraram para os meus filhos esse gol. Na Espanha, em Barcelona, eles não sabiam que eu tinha feito esses dois gols contra o Botafogo. Esses dois gols têm muita história para mim. Esses dois gols fizeram eu renovar meu contrato, comprar meu primeiro carro 0 km, um Passat, com Eurico. Porque o Eurico era todo coração também. Quando ele via que você corria, que você trabalhava pelo Vasco, ele te dava. E te tirava. Então compensava de um lado, tirava do outro. Ele sempre foi assim, sempre foi dessa forma, então a gente agradece muito, agradeço muito a ele. Foram muitas coisas que ele fez para a gente no Vasco.
Você foi campeão do mundo, teve carreira brilhante. Onde você se vê na galeria de grandes meias do futebol brasileiro? Com Dunga, Falcão e muitos outros?
— Eu não penso nisso, cara, eu meio que digo... eu sei que tem gente muito importante. Eu vejo meu momento, tenho meus troféus em casa, fui três anos melhor lateral-esquerdo do Brasil, 1987, 1988 e 1989. Porém não me comparo porque esses são muito maiores do que eu. Eu tenho meu canto, eu me respeito, sei aonde eu cheguei. Ninguém vai tirar de mim que fui campeão do mundo. Mas cada um tem seu espaço e sua vitrine.
Vocês de 1994 tem grupo de Whatsapp?
— Temos o grupo. O mal que fez essa pandemia também fez o bem para você reencontrar com muitos amigos. Eu tenho 11 grupos. Tenho o grupo do juvenil do Vasco, da concentração do Vasco, da minha infância, do colégio, da Seleção, da seleção brasileira campeã do mundo de juniores da Rússia, em 1985. Do Palmeiras. Quer dizer, você tem vários grupos que a pandemia fez reunir toda essa gente. De 1994, sempre que estou aqui reunimos todo mundo.
Quem fala mais ali, Ricardo Rocha?
— Ricardo todo dia. Eu, Jorginho, Taffarel, Cafu, Paulo Sergio. Quer dizer, muita gente está no grupo. Dunga...
Muita cornetada no futebol atual também?
— Sempre tem né. Quando vê alguma coisa diferente, sempre tem. É complicado, você hoje, é como a gente fala, acabaram nossos 10, nossos extremos, nossos centroavantes. São muito poucos. Quer dizer, antigamente você olhava para o Vasco, Flamengo, Palmeiras, Botafogo, Corinthians, Grêmio, Internacional, Atlético-MG,Cruzeiro, você tinha jogador para tudo que é lado. Você tinha 10 que você não sabia a quem escolher. Hoje em dia a gente não tem.
— E outra coisa importante, hoje em dia falta o que a gente tinha muito antigamente: líder. Não tem hoje um jogador que fale: “opa, aqui sou eu, vamos organizar aqui. Vamos saber quando a gente tem que ir, quando não tem que ir. Quando temos que conversar, quando não temos que conversar”. Isso falta no Brasil hoje. É dificuldade que eu vejo, na minha forma de pensar.
Esse papel era do Dunga com o Romário, por exemplo?
— Não só Dunga com o Romário. A gente tinha o Jorginho, a gente tinha o Bebeto, tinha o Ricardo Rocha, a gente tinha Branco, a gente tinha Taffarel. Tinha eu. Tinha Aldair. Todo mundo podia falar, podia escolher alguma coisa. Todos sabiam a importância de um grupo como esse. Não tinha só um ou dois líderes. Tinha quase todos. Era gente como muita experiência, gente já vivida no futebol. Gente que já passou por situações de 1990 importante. E que tiramos o barco todos da mesma forma, está entendendo.
Você jogou numa época sem rede social. Mas certamente viu seus filhos sob efeito de redes sociais. Como viu esse tema no futebol?
— Isso aí eles aprendem tudo. Com redes sociais, sem dúvida a cobrança, se você posta qualquer coisa. Aconteceu comigo. Eu fui para o Liverpool ver o jogo do Thiago e fiz uma foto e publiquei a foto. E alguém me respondeu na foto: “e o outro (filho)?” O Rafinha né, que estava num time menor e eu não botei uma foto no estádio do outro. Não tinha nada a ver uma coisa com a outra. Era uma forma de tentar te tirar do sério ou coisa assim.
Estavam te cobrando?
— Sim, na cabeça dessa pessoa... porque nos meus filhos estou em todas. Estou no jogo de um, no jogo do outro. Deixei de ser treinador e seguir minha vida como treinador para seguir a carreira deles, para estar no momento em que necessitavam. Então... a rede social é importante? É muito importante, mas às vezes prejudica muito também na hora de um garoto que está o tempo todo publicando situações e, de repente, tem uma negativa, pode realmente fazer muito dano a essa pessoa.
O Romário muita vezes foi interpretado como um cara muito individualista. Isso passava lá na Seleção?
— O futebol, por mais que seja jogado de forma coletiva, ele é individual, cara. O futebol é um time em que cada um tenta fazer um coletivo, mas na verdade não é um coletivo. Cada um tenta da sua forma, você trabalha o individual. Se eu não rendo como lateral ou como meia, cada peça vai se agrupando. Mas o Romário sempre foi assim, ele sempre foi uma pessoa que sabia o que queria, desde que eu conheço ele com 16 anos. Sempre colocou seus objetivos e nada põe na sua frente porque ele atropela. Então é, cada um tem sua forma de pensar, eu penso assim, ele pensa de outra forma. Se você colocar duas cabeças entre Romário e Bebeto, são duas cabeças completamente diferentes. Mas são dois goleadores iguais. Quer dizer, mas Romário sempre foi especial nessas situações.
Quando você pensa os cinco maiores que você jogou ou enfrentou, quem você coloca na sua cabeça?
— Que eu enfrentei, primeiro o Maradona. Jogador que marcava diferença brutal. Outro... muitos jogadores brasileiros. Mas tem o Zico. Zico também era complicado de você marcar. Outro que eu gostava muito, que eu admirava muito, que era muito difícil de tirar a bola, era o Adílio. Me encantava a forma como o Adílio jogava. E como pessoa era espetacular. Mas tem muitos outros jogadores. Tem italianos, alemães, na época do Campeonato Italiano, que era a era dourada dos anos 1980 da Itália. Eram jogadores maravilhosos. Não pode nem comparar ao que a gente tem hoje.
— Hoje você fala do Cristiano, fala do Messi, Neymar poderia ser esse terceiro jogador mais importante do mundo, mas não conseguiu ser o melhor jogador do mundo. Quer dizer, fala do Ronaldinho, que era maravilhoso, Ronaldo Fenômeno. Quer dizer, tantos outros jogadores que a gente pode citar aqui. Mas são épocas diferentes.
Conheceu Ancelotti, jogaram contra? O que achou dele aqui na Seleção?
— Sim, eu joguei contra ele. Joguei contra ele na Itália. A princípio não estava de acordo. O Brasil foi cinco vezes campeão do mundo com treinadores nossos. Mas tem que entender também que os nossos treinadores têm que se atualizar. O jogador vem de fora e vem com outro nível. Vem com o Guardiola, vem com o Ancelotti quando estava no Real Madrid. Com o Klopp. Quer dizer, são treinadores com um nível muito grande e que trabalha em grupos e seleções importantes.
— Nossos treinadores aqui não se atualizam neste sentido. Eu não apoiava o treinador estrangeiro, mas vendo um treinador como o Ancelotti, que eu conheço bem e teve com o meu filho no Bayern de Munique, que conheço bem o trabalho dele também no Real Madrid, então você vê que... vai funcionar? Vai funcionar. Falta material humano? Falta material humano, não sei como ele vai se ajustar.
Acha que falta material humano então?
— Eu acredito que sim. Falta muito jogador, falta muito para melhorar essa seleção, penso eu. E eu acredito que ele vai tentar fazer isso, vai tentar fazer isso. Porque vai ter que fazer. É um treinador que tem uma inteligência muito boa, tem uma coisa maravilhosa que é grupo, ele sabe estar com o jogador, sabe pensar como jogador, porque também foi um jogador importante. É um treinador importante, e eu tenho certeza que ele vai ajudar muita coisa a Seleção.
Tem um livro sobre ele que o título é “liderança tranquila”. Ele é assim?
— Sim, sim, eu não vejo, nunca vi em nenhum momento ele estressado. Na pior das hipóteses, que tinha o Real Madrid, a gente não via nunca ele estressado. Até o cara falando você vê que transmite uma paz. Quer dizer, neste aspecto, neste fogo que a gente tem aqui, ele é a água que vai apagando pouco a pouco. Botando as coisas no lugar, ajustando essa equipe. Tomara que faça uma excelente Copa do Mundo. Quem sabe, quanto menos favorito a gente é nesse Mundial, mais oportunidade a gente tem de chegar. Foi assim em 1994.
Lembra o Parreira nesse ponto da tranquilidade?
— Sim, o Parreira nunca discutia com você. Parreira discutia quando tinha que discutir e Ancelotti também, creio eu. Não é que tipo que deixa o pepino para outro. Não, não. O treinador tem que realmente passar essa tranquilidade. Parreira nunca discutiu com ninguém. Ele sempre soube levar o grupo, sempre soube dialogar, conversar, expor os problemas que você têm e tentar chegar a um acordo. Acho que é a melhor forma de trabalhar.
Gosta dos jogadores ali da sua posição hoje, Casemiro, Bruno Guimarães?
— São bons, eu gosto dos caras. Jogam no clube de forma maravilhosa, mas falta um pouco mais de liderança dentro da seleção. Acho que Casemiro, um jogador experiente, uma boa passagem na Seleção, com muitos jogos, jogador importante a nível mundial, tem que pegar mais o barco para ele. Tem que assumir mais a responsabilidade. Tentar ser um líder, tentar levar essa seleção o mais alto possível outra vez.
Para encerrar, te dói ver o Vasco assim tão mal?
— Cara, o Vasco me mata. Eu sou vascaíno, sofredor danado. Não vejo a hora que esse grupo arranque outra vez, que esteja no nível ou no nome que era sempre. O Vasco não merece a torcida que tem. O Vasco tem uma torcida maravilhosa. O time não merece a torcida que tem. Dessa forma que estou falando.
— Fui ver o jogo contra o Corinthians, cara, eu sofri. Tomamos dois gols bobos. Vi o jogo ontem (Santos 2 x 1 Vasco pelo Brasileiro), cabeçada de tudo que é lado. Quer dizer, a gente passou muitos nesse clube, a gente ama esse clube, a gente que adora esse clube, a gente torce para que o Vasco levante o mais rápido possível dessa situação e que possa ser como sempre entre os oito melhores do Brasil.
Por isso seus filhos viraram Flamengo?
— Não, viraram por causa do Adalberto (amigo e ex-jogador). Ele que me arrebentou. Todos eram vascaínos, quando voltei para cá. Adalberto falou: “vou levar os moleques para o Maracanã”. Era Fla-Flu. E botou o Rafa, o Rodrigo, filho dele, e o Thiago em campo. Quando voltaram, todo mundo cantando “poeira” (risos). Aí não dá. Aí ficou todo mundo flamenguista. E eu perdi a oportunidade de convencê-los a serem vascaínos.
Como vai ser esses 60 anos?
— Depois dos 50 eu já não faço mais festa. Os anos vão passando, a idade vai se aproximando, está ficando mais curto. Mas tem que fazer alguma coisa... Sessentinha tomar um bom vinho com meus filhos, um bom jantarzinho e está bom. Com os amigos e nada mais. Se estivesse aqui fazia um pagodinho, mas infelizmente não (risos).
Sente falta dessa vida no Brasil?
— Cara, eu aproveito sempre quando estou aqui. Sempre venho passar três meses aqui, entre Rio de Janeiro e João Pessoa, Santa Rita. E aproveito da melhor maneira possível. A convivência que tenho fora também é de tranquilidade. Você pode ir para tudo que é lugar. Você está passeando com seu cachorro na praia, 1h da manhã, 2h da manhã. Não tem nenhum problema, não tem que ficar olhando para um lado e para o outro. Quer dizer, essa é a diferença que a gente tem. Ainda mais quando você tem filho. Foi o que passou comigo. Poder dar uma educação e ter uma segurança melhor para eles. Foi o que passou comigo.
Como o Mazinho fala de si próprio, olhando para o espelho?
— Mazinho é um garoto que saiu lá de Santa Rita, que fez um percurso de 42h de ônibus e essa é a minha, cara. A minha vida é quando eu olho para trás. Acho que Mazinho resume isso. Aquele garoto de Santa Rita que veio tentar reafazer sua vida ou triunfar sua vida aqui no Rio de Janeiro, mas minha vida se transformou em 42h de ônibus. Isso é o que eu ponho na minha cabeça, porque eu sabia quem eu era, como eu cheguei e como eu terminei. O meu grande objetivo, a minha grande virtude era saber que aquele garoto que saiu de Santa Rita com 58 kg, chegando num cabide no Rio de Janeiro e conseguiu vencer nessa vida como jogador de futebol.
Fonte: ge
-
0 VascoTV: Trechos do treino do dia 20/03 -
0 Vasco posta fotos do treino desta sexta (20/03) -
-
1 Mudança importante nas competições da Conmebol TOP -
0 Vasco x Grêmio: Resgate de experiências estarão disponíveis hoje (20) -
0 Mazinho fala sobre seu amor pelo Vasco TOP -
1 Rojas entra no Time da 7ª Rodada do Campeonato Brasileiro 2026 TOP -
0 Basquete: Vasco destaca partida contra o Pinheiros em SJ amanhã (21/03) -
0 37 jogos, 2 gols, 10 assistências... Os números de André Gómez pelo Vasco -
0 Futebol Americano: Viktor Hugo está de volta ao Vasco Almirantes -
1 Léo Jardim faz aniversário nesta sexta (20/03) 🎉