Levantamento da EY mostra o financeiro dos clubes brasileiros em 2025

🤑

O futebol brasileiro atingiu um novo patamar financeiro em 2025. Segundo levantamento da EY sobre os clubes da Série A, a receita total das equipes chegou a R$ 14,9 bilhões, crescimento de 33% em relação ao ano anterior, puxado pelo Flamengo, seguido do Palmeiras. O avanço, porém, não foi acompanhado por uma redução do endividamento: a dívida líquida consolidada dos clubes alcançou R$ 14,3 bilhões, alta de 15% sobre 2024. Atlético-MG, Corinthians e Botafogo aparecem como os casos de maior pressão financeira entre os grandes clubes brasileiros.

O Flamengo lidera simultaneamente os rankings de faturamento e de geração de receitas recorrentes. O clube carioca tornou-se o primeiro do país a ultrapassar R$ 2 bilhões em receita total no ano passado, alcançando R$ 2,089 bilhões em 2025. Sem considerar transferências de atletas, o clube ainda registrou R$ 1,571 bilhão em receitas operacionais.

Mesmo com a liderança em arrecadação, o Flamengo aparece apenas na oitava posição em endividamento líquido, com R$ 473 milhões. O indicador que mede a relação entre dívida e receita total coloca o clube em situação confortável: a dívida equivale a apenas 0,42 vez sua receita anual, o menor índice entre os clubes endividados da Série A.

O Palmeiras segue trajetória semelhante. Segundo clube com maior faturamento do país, com R$ 1,766 bilhão, o time paulista registrou dívida líquida de R$ 1,150 bilhão, mas mantém indicador de alavancagem considerado controlado: 0,83 vez a receita total.

"O Palmeiras tem tido um crescimento constante de suas receitas nos últimos anos, tendo batido pela 2ª vez a casa do bilhão. Neste ano, o marco é mais significativo por ter batido esse número sem considerar a venda de atletas. Todas as linhas de receitas do clube aumentaram, com destaque para a receita comercial, que saltou de R$59 para R$249 milhões. Pela parte das obrigações, as informações financeiras indicam aumento associado ao ciclo de investimento no elenco, no entanto não são números que preocupam, dado que o clube segue a toada de crescimento constante de suas receitas recorrentes", explica José Ronaldo Rocha, Sócio de Tecnologia, Mídia & Entretenimento e Telecomunicações (TMT) da EY para América Latina.

Endividamento preocupa

Foto: divulgação

O Atlético-MG terminou 2025 com a maior dívida líquida do futebol nacional: R$ 2,288 bilhões. O valor representa 3,44 vezes a receita total do clube, o pior índice do levantamento. Além disso, o clube mineiro lidera o ranking de endividamento com empréstimos, superando R$ 1 bilhão nessa categoria.

O Corinthians aparece logo atrás em situação delicada. Mesmo registrando a sexta maior receita do país, com R$ 971 milhões, o clube possui dívida líquida de R$ 2 bilhões. O passivo equivale a 2,81 vezes sua receita anual. O clube paulista também lidera o ranking de dívidas tributárias, com R$ 842 milhões em débitos fiscais.

O Botafogo viveu um cenário de forte expansão financeira após a venda da SAF, mas acompanhado de crescimento acelerado no endividamento. O clube saltou de R$ 674 milhões para R$ 1,410 bilhão em receitas totais, impulsionado principalmente por vendas de jogadores e premiações internacionais. Ao mesmo tempo, a dívida líquida chegou a R$ 2,003 bilhões — terceira maior da Série A — e já representa 1,78 vez a receita anual do clube.

"São três casos diferentes. Temos o Corinthians que é um clube com enorme potencial de arrecadação e em 2025 apresentou diminuição tanto da receita recorrente quanto da não recorrente (aquela que conta venda de atletas), ao passo que conseguiu alongar algumas dívidas de curto prazo, diminuindo um pouco a pressão no caixa, que ainda segue enorme, pelo tamanho das obrigações bancárias, tributárias e da Arena. Já o Atlético-MG bateu recorde de receitas em 2025, mas possui uma dívida bancária de curto prazo que estrangula o clube e tira dinheiro do futebol. O aporte anunciado pelos donos deve dar um fôlego à SAF, e fundações para a equalização desse passivo de forma orgânica, mas não é a bala de prata para resolução desse problema", analisa José Ronaldo Rocha.

"O Botafogo está muito alavancado no curto prazo e com seus ingressos muito concentrados em receitas não recorrentes. Fora isso, há o problema de gestão do ex-MCO, onde o clube cobra centenas de milhões de reais que a contra-parte não reconhece e, por sua conta, cobra do Botafogo. Houve um ano de receitas muito altas, com recorde de ingressos, quase dobrando seu melhor ano, que havia sido em 2023. No entanto, é preciso estar atento que o número de 2025 se baseou muito em receitas não recorrentes, com mais da metade da receita vindo de venda de atletas e outra grande parte da participação do clube na Copa do Mundo de Clubes da FIFA. Do outro lado, o balanço evidencia aumento do passivo e, principalmente, forte concentração de obrigações no curto prazo, tornando esse talvez o maior desafio da nova gestão do clube", completou o especialista.

O Fluminense também teve crescimento expressivo em receitas após a campanha internacional e a participação na Copa do Mundo de Clubes. O clube fechou o ano com R$ 1,022 bilhão de faturamento, mas mantém dívida líquida de R$ 824 milhões. Ainda assim, o indicador de endividamento permanece abaixo de 1 vez a receita total, considerado mais sustentável em comparação a outros grandes clubes.

Entre os clubes com melhor equilíbrio financeiro proporcional aparecem Flamengo, Fortaleza e Bahia. O Bahia, por exemplo, reduziu sua dívida líquida em cerca de 80% na comparação com 2024, encerrando 2025 com R$ 168 milhões de endividamento líquido e índice equivalente a apenas 0,69 vez sua receita anual.

Venda de atletas impulsiona receitas e amplia distância financeira entre clubes

Foto: divulgação
Foto: divulgação

As transferências de jogadores tiveram papel central no crescimento financeiro do futebol brasileiro em 2025. Segundo levantamento da EY, as receitas com negociações de atletas alcançaram R$ 3,9 bilhões no período, crescimento de 45% em relação a 2024.

O relatório aponta que a venda de jogadores se consolidou como uma das principais alavancas econômicas dos clubes brasileiros, especialmente para equipes que ainda não possuem receitas recorrentes no mesmo nível de Flamengo e Palmeiras. Em muitos casos, as negociações internacionais foram decisivas para equilibrar fluxo de caixa, financiar contratações e reduzir pressões operacionais.

O Botafogo foi o principal destaque proporcional em 2025. O clube saltou de apenas R$ 36 milhões em receitas com transferências em 2024 para R$ 746 milhões em 2025, crescimento superior a 1.900%. A explosão nas vendas esteve diretamente ligada à valorização do elenco após as campanhas nacionais e internacionais recentes.

O Palmeiras também aparece entre os líderes do mercado de transferências. O clube arrecadou R$ 509 milhões em vendas de atletas, impulsionado principalmente pelas negociações de Vitor Reis, Estevão e Richard Ríos. O desempenho reforça um modelo financeiro baseado na combinação entre formação de atletas, valorização esportiva e receitas recorrentes elevadas.

Já o Flamengo registrou cerca de R$ 400 milhões em receitas com transferências, com destaque para as saídas de Gerson, Wesley e Alcaraz. Mesmo sem depender estruturalmente das vendas para equilibrar as contas, o clube segue utilizando o mercado internacional como mecanismo de fortalecimento financeiro e renovação do elenco.

No acumulado entre 2021 e 2025, o Palmeiras lidera o ranking de receitas com transferências, somando R$ 1,658 bilhão no período. Flamengo aparece em segundo lugar, com R$ 1,341 bilhão, seguido por Botafogo (R$ 1,190 bilhão), Corinthians (R$ 872 milhões) e São Paulo (R$ 848 milhões).

Segundo a EY, os dez clubes que mais arrecadaram com transferências concentraram aproximadamente R$ 9 bilhões em vendas de atletas entre 2021 e 2025. Apenas Palmeiras, Flamengo, Botafogo, Corinthians e São Paulo responderam por 65% desse total.

Os clubes cariocas tiveram forte peso nesse mercado. Somados, Flamengo, Fluminense e Botafogo representaram cerca de 36% das receitas de transferências do top 10 nacional no período, equivalente a aproximadamente R$ 3,2 bilhões.

A dependência das vendas de atletas também ajuda a explicar diferenças entre receitas totais e receitas recorrentes. O Botafogo, por exemplo, aparece entre os líderes em faturamento total graças ao forte desempenho no mercado de transferências, mas perde posições quando o levantamento exclui negociações de jogadores.

Nova realidade de mercado de direitos

O levantamento mostra que o crescimento das receitas no futebol brasileiro vem sendo puxado por direitos de transmissão, premiações internacionais, expansão comercial e negociações de atletas. Ao mesmo tempo, os números indicam que boa parte dos clubes ainda depende de aumento contínuo de arrecadação para sustentar estruturas de custo elevadas e níveis de dívida que seguem em expansão.

O novo cenário do mercado audiovisual do futebol brasileiro teve impacto direto nesses números. O relatório destaca que 2025 foi o primeiro ano em que os efeitos da Lei do Mandante apareceram de forma mais clara nas receitas dos clubes, com a divisão da Série A em dois blocos comerciais: LIBRA e Futebol Forte União (FFU).

A LIBRA, grupo que reúne parte dos principais clubes do país, fechou contrato de exclusividade com a Globo e garantiu receita anual fixa de R$ 1,17 bilhão. Já a FFU adotou um modelo fragmentado de comercialização, negociando direitos com Globo, Record, Amazon e YouTube, alcançando cerca de R$ 1,5 bilhão em receitas.

Além da mudança no modelo de distribuição, o desempenho esportivo internacional ampliou ainda mais os ganhos dos clubes em 2025. A Copa do Mundo de Clubes da FIFA foi apontada pela EY como um dos principais impulsionadores das receitas da temporada. O torneio distribuiu cerca de R$ 86 milhões fixos aos clubes brasileiros participantes, além de bônus milionários por desempenho. O campeão poderia alcançar até US$ 40 milhões apenas em premiação final.

Nesse contexto, Flamengo liderou o ranking de receitas de transmissão e premiações com R$ 612 milhões. O clube carioca foi seguido por Fluminense (R$ 580 milhões), Palmeiras (R$ 527 milhões) e Botafogo (R$ 380 milhões) — justamente os quatro brasileiros presentes no Mundial de Clubes.

O Fluminense registrou o maior salto proporcional nessa categoria. Após alcançar a semifinal da Copa do Mundo de Clubes, o clube saiu de R$ 167 milhões em receitas de transmissão e premiações em 2024 para R$ 580 milhões em 2025, crescimento de aproximadamente 247%.

O Corinthians aparece logo atrás dos clubes do Mundial, com R$ 363 milhões em receitas de transmissão e premiações, impulsionado principalmente pelo título da Copa do Brasil, que rendeu cerca de R$ 97 milhões aos cofres do clube paulista

Foto: divulgação

Fonte: Blog Diogo Dantas - Globo Online

Mais Recentes