Falas de dirigentes após a reunião mostram a dificuldade de articulação
No exterior, as ligas foram construídas prioritariamente pelos clubes. Havia, sim, aval das federações nacionais. Mas seu papel era lateral no planejamento de como seria o campeonato.
No Brasil, a primeira reunião para construção da liga (mais uma) teve a CBF protagonista. Apresentou um diagnóstico de problemas: vai propor soluções. E os clubes vão participar, com voto, com sugestões. Mas não são a locomotiva.
E por que o Brasil tem uma realidade diferente?
As posições de alguns dirigentes após a reunião mostram a dificuldade de articulação unida dos clubes. Os dirigentes de Vasco e Palmeiras atacaram Luiz Eduardo Baptista, presidente do Flamengo. Eram respostas a frases anteriores do dirigente.
"Eu não tenho dúvida que sem o envolvimento da CBF, essa liga não vai sair, não vai. Nós já tentamos, isso há quatro anos atrás, o que nós conseguimos foi uma divisão entre os clubes, entre essas duas ligas. Então, sem uma entidade, com a força da CBF. E outra coisa, a CBF não está impondo. Inclusive, na próxima etapa, ela vai ouvir sugestões de todos os clubes", disse Leila, do Palmeiras.
Na mesma fala, ela deu uma indireta ao Flamengo chamando de Real Madrid da Shopee, uma referência a Bap que mira o exemplo do clube espanhol.
A poucos metros, Pedrinho também atacava Bap acusando-o de arrogância pelas críticas ao empréstimo da Crefisa ao Vasco.
"E ele não foi direto, mas ele insinuou que eu pego o empréstimo no dia que eu perco o jogo do Palmeiras de 3 a 0. Então ele está ali colocando em dúvida o meu caráter, o caráter do meu treinador, o caráter de um elenco de 30 jogadores", reclamou.
Esse exemplo foi usado por Pedrinho para demonstrar que os clubes não conseguem fazer a liga sozinhos por desavenças, e por não se ajudarem.
Bap saiu da reunião sem declarações bombásticas. Mas também apontou um outro fator em favor da liga da CBF ao falar sobre o diagnóstico apresentado. "Primeira vez que eu vejo uma apresentação que junta lé com cré", elogiou, usando uma expressão sobre algo que faz sentido, tem lógica.
Durante a reunião, o CEO do Atlético-MG, Pedro Daniel, fez um discurso em que comentou que a CBF estava dando um choque de realidade aos clubes. Contou que, no mundo do futebol, o Brasil não é atualmente referência para nada. Apontava justamente para os dados da confederação sobre os problemas do Brasileiro.
Dentro da CBF, há a percepção de que os presidentes de clubes, envoltos no dia a dia, simplesmente não têm tempo e mão de obra para conceber as bases de uma liga. Diga-se, preparar estudos técnicos para identificar problemas e soluções. É esse papel que a equipe da entidade tem feito.
Outro ponto que torna a execução pelos clubes de uma liga sozinho é o acordo com a FFU (Forte Futebol União). Um total de 30 agremiações assinou. Boa parte delas - na Série B - passou a criticar o próprio contrato e os resultados financeiros obtidos.
Atualmente, alguns dirigentes de times da FFU falam sobre a necessidade de uma revisão do acordo na parte em que se concede poder à entidade para negociar os direitos em nome dos clubes. Esse grupo de cartolas não quer a entidade na negociação da Liga.
Foi à CBF que os clubes recorreram por causa dos problemas da Série B. No discurso, a entidade quer os clubes protagonistas.
Antes da questão da FFU, houve a briga dentro da Libra pela divisão de dinheiro, com um Flamengo de um lado. Essa disputa parece próxima do fim com um acordo negociado entre as partes.
"É uma discussão que vem há anos e por isso não conseguiram ter uma liga única. A CBF e os clubes entendem que precisa haver um diálogo com todos os envolvidos e alguém precisa se prontificar em relação a isso. A CBF está se prontificando. Mas a gente quer que os clubes sejam protagonistas em relação à liga", disse Samir Xaud, presidente da CBF.
Na prática, não existe vácuo de poder.
Fonte: UOL Esporte
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