Ex-Vasco, Paulão anuncia aposentadoria
Aos 40 anos, comemorados exatamente nesta quarta-feira, o zagueiro Paulão se despede oficialmente dos gramados. Em entrevista exclusiva ao ge, o atleta anunciou a aposentadoria e fez um balanço da carreira, falou de arrependimentos e destacou a importância de Rogério Ceni na retomada de confiança no futebol.
– Me considero um cara vitorioso. Se na visão das pessoas não fui um vitorioso porque o Inter caiu (em 2016), faz parte, não fui o primeiro, não vou ser o último. Mas dentro do que eu consegui alcançar, da realidade que vim, sou muito vitorioso – avaliou.
A escolha de fazer o anúncio na data de aniversário não foi aleatória. O número 25 sempre acompanhou o zagueiro no uniforme e agora também marca o começo de um novo ciclo fora dos gramados.
– Sempre joguei com a camisa 25 em homenagem ao meu aniversário e nada melhor do que no dia 25 ter outro renascimento para minha vida profissional pós-futebol.
Os próximos passos do agora atleta aposentado serão dedicados a projetos pessoais e a uma empresa de agenciamento que tem com o ex-atacante Muriqui. Ele fixou residência em Porto Alegre justamente para se manter próximo da filha Pietra, de nove anos.
Então metalúrgico em Salvador, sua cidade natal, Paulão teve a profissão traçada na disputa de um campeonato amador, por meio do qual chegou ao ASA-AL. A partir de então, conquistou o Brasil.
Em 20 anos de carreira, Paulão passou por 13 clubes, disputou 520 jogos e marcou 25 gols, destaque aos dois de bicicleta, por Inter e Fortaleza. Soma um título brasileiro, dois acessos, e títulos do campeonato gaúcho, mineiro, cearense e mato-grossense.
Renato Gaúcho e a China
Ao assumir o Grêmio, em 2010, Renato Portaluppi trouxe o zagueiro do Grêmio Barueri. Foi ele o responsável por impulsionar a carreira do jovem de 25 anos e dar o "empurrão" para o futebol chinês.
– Venho para cá (Porto Alegre) com a sensação de "mudei minha vida". Estava muito entusiasmado e quando chega a proposta da China eu dizia para o Renato "não deixa os caras me vender". Ele chegou, disse que eu estava pensando só no hoje e não olhando para o futuro. Iria ser bom para mim.
A conversa funcionou, e Paulão foi vendido ao Guangzhou Evergrande, um ano após chegar na capital gaúcha. No exterior, atuou por dois anos e meio, descritos como um "divisor de águas" da carreira, tanto financeiro como de conhecimento técnico em campo.
– Fazia pré-temporada na Europa, tive contato com jogadores como Drogba, Cristiano Ronaldo, Kaká. Saio de um jovem jogador para ser um jogador jovem, que conhece as limitações e qualidades.
De volta ao Brasil
Contudo, com a chegada do atacante Elkeson à China, o limite de estrangeiros foi atingido. Paulão não pôde ser inscrito nas principais competições da temporada. Negociou a saída do clube e acabou emprestado ao Cruzeiro. Pela Raposa conquistou o principal título da carreira, o Brasileirão de 2013.
– Coisa de sul-americano, que não aceita ficar na reserva, ser agregador de grupo. Aquilo começou a apertar o coração porque eu ia para o jogo e sabia que não ia jogar e não é por causa da qualidade, mas pela inscrição. Pedi para ir embora – explicou.
Ao olhar para trás, Paulão coloca a volta precoce ao Brasil como um dos arrependimentos. Apesar da conquista pela Raposa, entende que a permanência no Guangzhou poderia ter aberto outras portas no futebol internacional.
– Não era o momento, poderia ter vivido mais lá. Não estou falando que não foi importante voltar, mas se aguenta ficar mais cinco anos, poderia ter alcançado o mercado do Japão e o mundo árabe.
Do céu ao inferno no Inter
O que era para ser uma temporada no Brasil se tornou permanente. Paulão foi comprado pelo Inter no fim daquele ano e viveu o momento mais emblemático da carreira. Foi tricampeão gaúcho, teve lance comparado à Garrincha e marcou seu gol mais bonito no Beira-Rio, ao mesmo tempo participou do rebaixamento da equipe, em 2016.
No início como capitão, como uma das lideranças, ficou marcado por parte da torcida pelo fracasso. O atleta diz até hoje não entender por que foi escolhido alvo e admite que o episódio impactou diretamente nas cobranças sofridas nos clubes sequentes.
– Já fiz essa reflexão várias vezes. Eu errei dentro de campo, mas teve gente que errou tanto quanto eu. Mas por que uma bola aérea me fez marcar tanto, um carrinho, o meu amarelo? Realmente não sei a resposta. Fomos umas das melhores defesas do campeonato. Se fosse pelo sistema defensivo, estávamos brigando pela Libertadores. E eu era zagueiro, capitão – contou.
– Quando você está marcado por algo, tem que se provar a cada dia. Todo clube que eu fui após isso (rebaixamento) tive que provar a cada jogo que aquela imagem do descenso não passou só por mim, a responsabilidade também era minha mas não foi o Paulão que botou o clube nas costas e derrubou o Inter – acrescentou.
Mesmo de contrato renovado, Paulão pouco atuou pelo Inter nas temporadas seguintes. Teve uma série de empréstimos para Vasco, América-MG e Fortaleza. O trauma sempre o acompanhou, inseguro dentro de campo, não conseguia ser mais ele mesmo.
Eis que chega Ceni
Foi sob o comando de Rogério Ceni no Fortaleza, em 2019, que Paulão diz ter se reencontrado no futebol. Com cobrança e confiança, o treinador multicampeão nos gramados devolveu ao zagueiro a gana de competir e o ajudou a lidar com o trauma.
– O Rogério é um cara que traz as dificuldades e o crescimento que eu precisava na minha carreira. O tratamento dele era para um cara que precisava se "alimentar" mais de conhecimento.
– Ali eu volto a ser competitivo, ter confiança e coragem de falar. Eu tinha muita insegurança no que eu poderia entregar, e foi justamente esse o motivo que me levou ao Inter, por ser um jogador determinado, sempre me entreguei, puxei responsabilidade em alguns momentos. Então ali eu volto a ser essa pessoa – contou.
A não renovação com o Fortaleza também foi apontada por Paulão como arrependimento, frente ao bom momento profissional e do clube.
– Poderia ter criado esse lastro de uma história maior no Fortaleza. Depois de um tempo, a gente percebe que não era o momento, poderia ter permanecido, porque surgiu a oportunidade de renovação de contrato. Não chegamos a um acordo, e nem foi por questão financeira, como falaram na época, mas sim por projeto. Eu poderia ter brigado pelo projeto.
Após o Fortaleza, Paulão ainda atuou por Cuiabá, Paysandu e North Esporte Clube, último desafio antes de bater o martelo sobre a aposentadoria.
Fonte: ge
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