Como que era o vestiário do Vasco com o Romário e o Edmundo? Amaral comenta

A alegria e o sorriso estampados no rosto são características que ajudam a definir Alexandre da Silva Mariano, folclórico personagem do futebol que atende pelo apelido de Amaral. Mais do que a grande carreira que o currículo por si só resume, com passagens por clubes como Palmeiras, Corinthians e Vasco, além da Seleção, o ex-jogador ganhou ainda mais fama pelas histórias que conta como poucos e que fazem sucesso em um esporte com cada vez menos acesso.

Mas um lado quase desconhecido de Amaral pôde ser visto durante boa parte da entrevista de cerca de uma hora e 20 minutos na sede da Globo, em São Paulo. A pobreza na infância, o racismo sofrido ao longo da carreira e o fato de ter proporcionado os estudos para a filha fora do Brasil emocionam e tiram lágrimas de um rosto sempre marcado pela felicidade.

– Nós sofremos pra caramba, entendeu? É gostoso de ver a Maju apresentando o Fantástico, nossa amiga na câmera nos filmando. Isso me emociona bastante, é a maior alegria minha ver o negro vencer, porque só nós sabemos o que passamos. Não é mimimi, não. Sofri bastante, mas a melhor resposta para a ignorância é o silêncio. Hoje vejo as pessoas falando de racismo, ignoro. Isso sempre teve e vai ter, porque o negro, quando entra, faz a diferença. Por isso que a gente tem o melhor jogador negro que foi o Pelé, eles inventam um monte de jogadores, mas nunca ninguém vai alcançar o Pelé.

– O objetivo mesmo na vida é chegar na sua casa, você abrir a geladeira e ver que tem alimento. Hoje você tem um teto. Não vou dizer para você que fiquei rico, mas fiquei bem. Muitas pessoas falam que perdi muita coisa, mas ganhei. Quando comecei a jogar futebol não tinha uma casa. Hoje, tenho uma casa, um carro, não devo para ninguém. Isso que é o mais importante. E ando de cabeça seguida aonde eu vou – disse Amaral.

Ficha Técnica

Amaral fugiu do tradicional sonho de toda criança: ser jogador de futebol profissional. Desde a infância em Capivari até os primeiros passos no mercado de trabalho como funcionário de uma funerária, ele nunca almejou construir carreira no esporte.

– Nunca quis ser jogador de futebol. É doido isso. As pessoas falam pra mim: "pô, Amaral, você tem um ídolo no futebol?". Não, meu ídolo sou eu. Eu admiro eu mesmo. A minha performance, da forma que cheguei no Palmeiras em 1992, por meio de uma carta, o Marcão por meio de 15 pares de chuteiras que levaram para Oriente. Então vi que ali podia mudar a vida da minha família, mas não sabia aonde ia me levar.

O ex-jogador de sucesso com passagem pela seleção brasileira se reinventou usando a boa comunicação e as histórias acumuladas ao longo das mais de duas décadas no futebol. Saiu o Amaral atleta, entrou o Amaral influenciador. E o Amaral que participou de reality shows como "A Fazenda" e "The Masked Singer" - a ponto de dar dicas ao amigo Edilson, hoje confinado na casa do Big Brother Brasil 26.

– Ver um Edilson no Big Brother, outros jogadores nas outras emissoras fazendo reality, isso é uma porta aberta, isso é legal também, porque se ele ganhar esse dinheiro aí, acho que 50 centavos de porcentagem ele tem que me dar, pô (risos).

– Eu me reinventei, né? Todas as coisas que aconteciam na minha vida, com a internet, com o mundo digital, deu uma levantada muito grande na minha carreira. Praticamente, o pessoal me conhece bastante pelo futebol pelos clubes que joguei. Foram todos clubes de expressão, com o próprio Palmeiras, Corinthians, Vasco, Grêmio, Atlético Mineiro, Vitória, Santa Cruz, Capivariano.

– Sou um cara que tem portas abertas em muitos lugares, faço parte de todas as panelas, sou da geração nova, a geração que se foi, da geração que tá surgindo. Isso é muito legal. Posso dizer para você que tem, às vezes, campanhas que faço que ganho muito mais do que quando jogava – disse.

A saborosa, divertida e emocionante entrevista de Amaral ainda tem detalhes sobre o elástico desconcertante aplicado por Romário, a relação com o Baixinho e Edmundo no Vasco, reflexões da vida de um ex-jogador de futebol e a alegria ao ver a filha estudando fora do país. E, claro, os causos engraçados que só ele sabe contar.

Abre Aspas: Amaral

ge.globo: Você pensava em capitalizar esse outro lado na carreira fora do futebol?

– Sinceramente, nunca pensei. Porque cheguei no futebol com 17, 18 anos de idade. Antigamente a gente pensava no futuro, hoje a minha filha faz biotecnologia, está na Austrália. Não sei o que ela está fazendo lá, quando ela me liga, fala português, não fala inglês. A minha vida sempre foi um livro aberto, fui um cara que aprendi muito com a vida. Então a vida foi a minha escola, todas as minhas histórias não são inventadas. São realmente fatos que aconteceram. Tem muitas histórias de outras pessoas que os caras jogam pra mim, mas falo que não é a minha. As minhas são todas histórias verídicas.

Você era a mesma pessoa quando jogava?

– Eu era mais concentrado. Por exemplo, as quebradas minhas, no vestiário, nas viagens, ficavam ali. Se naquela época tivesse redes sociais, praticamente eu ia ser um jogador folclórico, porque eu quebrava muito. Quebrava pra aprender, até hoje, né? Por exemplo, hoje às vezes eu dou umas quebradas, só que hoje os caras pegam, jogam na internet e contaminam o mundo todo. As histórias minhas, até o Forró do Gérson, o jogo na África, o sequestro da minha mãe, o meu tio quando morreu... hoje, por exemplo, eu vou fazer uma palestra e o nego fala, ô, conta aquela história lá e tal. Coisas que eu realmente esquecia. E eles acabam me lembrando. Mas isso é legal, eu levo isso como esportivo.

Existe uma cobrança excessiva no futebol hoje por causa da rede social?

– Os jogadores de futebol hoje não são como antigamente. Antigamente a gente falava assim, pô, a gente só sai quando ganha. E quando não ganha, fica na casinha. Hoje não, hoje a gente vê os jogadores de futebol, perdem o jogo e depois tem uma postagem que eles estão no restaurante. Então tem torcedores que não aceitam isso. E antigamente o que tinha era o jornal, então muitos jogavam no domingo e na segunda-feira todo mundo já olhava lá o jornal pra ver o que realmente estava acontecendo.

– Mas fui uma pessoa que plantou sempre o bem, sempre plantei a coisa boa e graças a Deus hoje por isso que colho. Às vezes vou em lugares que nunca imaginei ir. Por exemplo, hoje tenho porta aberta em todos os clubes que não joguei. O próprio São Paulo, Cruzeiro, Santos, Flamengo, Fluminense, Botafogo, Inter, times que não joguei, mas torcedores gostam muito de mim, isso é legal. Porque plantei sem saber que ia colher no futuro.

O futebol está cada vez mais fechado. Acha que os jogadores atuais terão histórias para contar iguais as que você construiu na carreira?

– Eu acho que perdeu um pouco, porque hoje os jogadores são muito blindados, é muito difícil você chegar para entrevistar um jogador. Antigamente tinha os programas de televisão que eles ligavam, ó, você está livre hoje para ir em tal programa? Você ia. Hoje os jogadores são muito blindados. Mas acho que isso deixa eles muito fora do público também, porque o público quer conhecer a essência do jogador. Hoje os clubes escolhem quem vai fazer entrevista. Antigamente não. Antigamente você, pô, posso fazer a matéria com você? Posso ir na tua casa mostrar como que você é? Tinha muito isso antes, mas hoje você não vê.

– E isso é muito ruim para o jogador de futebol, porque tem muitas pessoas hoje que às vezes não veem televisão. É uma geração muito diferente, fui um cara que por meio da bola consegui mudar a vida da minha família. A bola para mim sempre foi um prato de comida, quando perdia o jogo, isso doía em mim. Não que eles não sentem, mas acho que nós, jogadores da época de 1990, a gente sentia muito mais que esses jogadores de hoje, não desmerecendo eles. Pelo valor, pela entrega, por exemplo, quando você perdia o jogo, você é meu melhor amigo, eu não ficava conversando com você. Eu já ia direto para o vestiário, triste, pensando no próximo jogo para a gente conseguir vencer.

Acha que os valores atuais tiram um pouco da vontade do jogador crescer ou de performar mais do que antigamente?

– Não, acho que não tira o foco, porque o jogador de futebol, tem muitas pessoas que falam "pô, jogador de futebol derruba treinador?" Não. Treinador se derruba sozinho. Jogador de futebol entrega jogo? Não. Eu acho que dentro das quatro linhas, eles não pensam no salário que vão ganhar. Quem criou esse salário que eles estão ganhando não foram eles, foi o próprio dirigente. Para você ver, na época, eu jogando na seleção brasileira ganhava R$ 5 mil, o top ganhava R$ 300 mil, mas eu era feliz, entrava no campo como se estivesse ganhando R$ 300, entendeu? E mérito para aqueles que estão ganhando mais, que Deus abençoe a vida deles e ampare a minha. O futebol mudou muito.

– Antigamente, para você comprar um apartamento, tinha que ganhar cinco, quatro títulos. Hoje, sem nenhum título você consegue ganhar um apartamento. Por exemplo, fui campeão brasileiro quatro vezes. O prêmio nunca passou de R$ 20 mil. Hoje, se um jogador é campeão brasileiro, ele ganha R$ 400 mil. Você está entendendo? Se um jogador vai para uma Seleção, ganha um título, é tipo meio milhão. Um jogador hoje ganha uma Libertadores, pode ser R$ 2 milhões. Então, os valores hoje aumentaram muito. Até na própria arquibancada, um torcedor de médio para baixo não consegue ver um jogo no futebol. Isso é um absurdo, porque o futebol sempre foi a alegria dos mais humildes de uma classe média ou de uma classe baixa. Hoje, não conseguem ver um jogo.

Ficou rico com o futebol?

– Não vou dizer para você que fiquei rico, mas fiquei bem. Fiquei bem, porque muitas pessoas falam que perdi muita coisa, mas ganhei. Quando comecei a jogar futebol, não tinha uma casa. Hoje, tenho uma casa, um carro, não devo para ninguém. Isso que é o mais importante. E ando de cabeça erguida aonde vou.

Você consegue identificar o porquê de o Brasil não estar formando tantos craques como formou no passado?

– Eu penso que é oportunidade de insistir sempre naqueles jogadores. Porque a gente vê nosso futebol brasileiro... o Palmeiras hoje vende um jogador na base que nunca alcançou uma seleção principal e nunca alcançou um time principal com o valor de um jogador que está jogando na Série A. Acho que tem que valorizar mais esses jogadores, para chegar a uma seleção brasileira e dar oportunidade. Porque antigamente, para você chegar à seleção brasileira tinha que estar bem no seu clube. Não tinha carteirinha.

– Não tem hoje como, por exemplo, se sou camisa 7 e não vou ser convocado, o cara que vai sair jogando não vai usar a camisa 7 e a camisa 7 vai ficar no banco de reservas. Acontece muito isso. Acho que o futebol hoje brasileiro é o melhor do mundo. Depois que a gente perdeu para a Alemanha, a gente começou a copiar a forma de os europeus jogarem. A gente tem nossa essência, a gente pode pegar uma coisa da Europa que é o quê? O comportamento, o horário, a disciplina. Porque o brasileiro sempre chega atrasado, o brasileiro sempre é mais largado. Mas a tática que a gente tem aqui, a gente não pode transformar em Europa.

– Acho que isso que falta no nosso futebol brasileiro. Estamos trazendo um treinador, e trabalhei com ele, que é um excelente treinador, que gosta do jeito de o brasileiro jogar. E não gosta do jeito de o europeu jogar. Por isso que acho que o Ancelotti vai dar muito certo aqui, se ele pegar a disciplina do europeu e colocar o talento do brasileiro para jogar dentro de campo.

Como foi trabalhar com o Carlo Ancelotti no Parma?

– Foi muito bom, apesar de eu não ter tido muita cabeça naquela época lá, porque não me adaptei, nunca tinha viajado para fora do país e comia macarrão todo dia. O Ancelotti queria que eu jogasse de uma forma que não conseguia, eu queria jogar no meio. Mas foi um treinador que me ajudou bastante, para você ver que ele até deu uma entrevista, falou que trabalhou com vários jogadores, falou até do meu nome. Fiquei muito feliz por ter trabalhado pouco tempo com ele, porque ele viu o esforço, a dedicação que eu tinha dentro do campo.

O Parma foi a sua primeira experiência fora do Brasil? Como é que foi aquele moleque chegar e jogar na Europa, morar na Itália?

– Para mim foi difícil, porque nunca tinha visto neve, um frio danado, e lá eles tinham o modo deles de comportamento, às vezes o pessoal tomava vinho, eu queria tomar um refrigerante, não podia. Não podia misturar o frango com o macarrão, tinha que comer macarrão, macarrão, salada, salada, carne, carne, frango, carne, então não adaptei, mas fiz muita amizade. Tem até uma entrevista do Canavarro com o Romário, ele falou de mim, que quando fui embora, doei todos os meus móveis para ele, o levaram para comer feijoada, ele falou que eu tinha um coração enorme, então isso foi muito legal.

E agora o Edilson no BBB?

– Fico muito feliz, porque o Edilson é um cara maravilhoso, um cara carismático. Um cara campeão do mundo pela Seleção, acho que, ele estando lá, ele está abrindo porta para os outros jogadores. Ver um Edilson no Big Brother, outros jogadores nas outras emissoras fazendo reality, isso é uma porta aberta, isso é legal também, porque se ele ganhar esse dinheiro aí, acho que 50 centavos de porcentagem ele tem que me dar, pô.

Ele é o seu grande amigo no futebol?

– Acho que é um dos grandes amigos, tenho muitos amigos, não tenho inimigos. Tem jogadores que nem joguei com eles, e hoje é um grande amigo meu, o próprio Aloisio Chulapa, Paulo Nunes, Alex Dias, Júnior Baiano, Viola, que já joguei também com ele. O Marcelinho Carioca, Vampeta, Rivaldo, Ronaldo, Roberto Carlos, tenho muitos amigos no futebol, o próprio Edmundo.

– É difícil a gente falar, a gente acaba até esquecendo, o próprio Romário, apesar de ter me dado aquele elástico, é um grande amigo também. Mas fico muito feliz que essas pessoas citam o meu nome. Tem até um fato engraçado, que muitos pensaram que eu ia ficar maluco, ia ficar puto, que o Romário foi entrevistar o Ronaldo e perguntou qual o pior jogador com quem ele jogou, ele citou o meu nome. Eu fiquei feliz, porque ele citou o meu nome. Depois, até postei nas minhas redes sociais o lance que dou tapa pra ele. Ronaldo, eu te amo, porque ele sabe que levo sempre na esportiva, isso é muito legal, gratificante.

Deu alguma dica para o Edilson no BBB?

– Eu fiz dois reality shows. Eu fiz um na Record, fiz um na Globo, que foi o Masked Singer. E fui cantando, imagina eu cantar? Fiquei três semanas, foi muito legal. Eu falei pra ele: "Ó, você tem que ser você, pô". Só que você tem que tomar cuidado com o que você fala. É um reality top dos tops, que a proporção do Big Brother é muito grande, não só no Brasil como fora. Você vai ter nosso apoio aqui, a gente vai torcer pra você, mas vigia. Toma cuidado, não entre em atrito, porque você já tem um nome. Você criou um grande nome, você tem uma marca. Então entra lá, não deixe essa marca apagar, deixe essa marca aí florescer. E tenho certeza de que você vai chegar longe. Mas se você ganhar, pô, uma beiradinha você tem que dar pra mim.

E ele vai longe?

– Eu acho que ele vai longe. Foi até legal essa prova que ele passou aí, mais de 24 horas acordado, porque ele já é acostumado. Na Bahia, carnaval, trio elétrico... mas só quando ele começou a sentir o joelho, né? Mas foi legal, foi bacana. Foi muito gratificante.

Já teve medo de ser cancelado por alguma história?

– É, por exemplo, as minhas histórias são todas reais. Mas todo mundo conhece a minha essência. Às vezes tem muitas pessoas que não querem ver o seu sucesso, né? Às vezes querem plantar discórdia. Mas você sendo você mesmo, você tem o seu lado bom, ninguém vai te cancelar. O negócio só vai colocar pra cima.

Quem é melhor contador de história? Você ou o Vampeta?

– O Vampeta conta bem, acho que tem uma pessoa que contava melhor que eu e o Vampeta, que hoje está no céu, que era o Gilmar Fubá. O Fubá era um grande contador de histórias, só que as minhas histórias são todas histórias verídicas. O Vampeta, às vezes, acrescenta algumas coisas. Tem até um fato engraçado, foi uns dois anos atrás e achei que isso ia vazar, aconteceu comigo, só que tinha gente do meu lado e falou, pô, tu quebra pra caramba, Amaral.

– Eu cheguei no hotel, a primeira coisa que você chega no hotel, você pergunta a antena e a senha do wi-fi. A mulher me deu a chave, falei, qual é a antena? Antena é fulano de tal. E a senha, atrás da chave. Eu fui pro quarto e comecei a escrever atrás da chave, atrás da chave, atrás da chave. Eu falei, pô, Batata, chave escreve cedilha ou x? Porque tô tentando colocar a senha aqui e não tá indo. "Pô, Amaral, você é burro pra caramba, hein?". A senha tá atrás da chave, né? A senha estava atrás da chave, eu achei que a senha era a chave.

As pessoas gostam de você por causa dessas histórias...

– As pessoas querem saber das histórias, querem saber também do passado. Porque às vezes a gente vai em alguns podcasts e as pessoas falam: "Não quero que você conte história, quero que você conte como você surgiu no futebol". E é um momento triste, mas tem momentos de alegria, tem momentos de coisas que eu realmente não sabia, porque fui um cara que nunca quis ser jogador de futebol. É doido isso, e as pessoas falam até pra mim, pô, Amaral, você tem um ídolo no futebol? Não, meu ídolo sou eu. Eu admiro eu. A minha performance, da forma que eu cheguei no Palmeiras em 1992, cheguei por uma carta, o Marcão chegou por 15 pares de chuteiras que levaram para Oriente. Então eu vi que ali eu podia mudar a vida da minha família, mas não sabia aonde ia me levar.

– Eu vou chegar no Palmeiras para jogar no júnior, mas não pensava, vou chegar no profissional, pô, eu vou ali, acho que vou ganhar um salário, dois salários, vai ser melhor que eu ganhava na funerária. Então, quando eu cheguei ali, as coisas foram acontecendo. E para você ver, em 1990, eu estava no meio da Gaviões da Fiel, torcendo para o Corinthians contra o São Paulo. E eu lá torcendo, três anos depois eu estava no Morumbi ganhando do Corinthians, sem imaginar. Quando os caras vinham me entrevistar, a oportunidade tá sendo dada pra mim, eu vou agarrar. Ah, mas você tinha um sonho de estar aqui? Não, eu não tinha um sonho de estar aqui. Jamais imaginei de um sonho de estar na Seleção. Meus amigos já eram convocados para a seleção brasileira de base, e eu lá. E quando fui convocado, nem pra base fui, já fui direto pra principal.

Aconteceu na tua vida, não foi algo programado?

– Não, não programei. Aconteceu. E pra você ver, antigamente a gente acordava meio-dia para ver o Campeonato Italiano. Passou três anos e eu estava onde? Na Itália. Sem pensar, é uma coisa doida, né? É uma coisa doida, você não almejar e conseguir. Mas tive muitas dificuldades também depois que me tornei jogador de futebol. Por exemplo, linguagem, adaptação. Vou falar pra você que eu soube lidar com dinheiro? Não. Porque o que eu não fiz na infância, quando comecei a ganhar dinheiro, comecei a fazer. Então, perdi dinheiro? Não perdi dinheiro em bobeira. Ninguém fala, pô, você perdeu dinheiro quando você casou? Não, não perdi dinheiro quando casei. Quando casei, a gente tinha que dividir o bolo, sua metade tá aqui, a minha metade tá aqui, da minha vou fazer o outro bolo. Da minha ex-esposa, se ela comeu toda a metade, não posso fazer nada. Mas hoje, graças a Deus, vivo bem. Pô Amaral, você tem seu pé de meia? Hoje tenho, mas quando jogava não tinha.

Você lembra qual foi o primeiro impacto que o dinheiro te causou na vida?

– Quando consegui comprar uma casa para minha mãe, até hoje eu tenho. Mas, por exemplo, você perde muito quando você está no alto, você perde muito dinheiro em carro, acho que perdi mais assim, em carro, porque vivi a vida. Se eu tinha vontade de comprar um videogame, que antigamente eu brincava de carrinho de plástico, ia lá e comprava um videogame. Se queria ir para um parque, ia para um parque. Se queria fazer uma viagem, fazia uma viagem. Então, saboreei a vida. E, graças a Deus, joguei nos melhores lugares: Itália, Portugal, Austrália, Catar.

Teve algum arrependimento relativo a dinheiro?

– Não, não tive arrependimento. Posso dizer que tive arrependimento de contratos que podia ter um pouco mais de paciência e acabei não tendo paciência, pedindo para sair. Na Fiorentina, perdi muito dinheiro, se eu falar para você o que perdi, não gosto nem de falar porque já passou. Porque a Florentina faliu, fiquei sete meses sem receber na Florentina. O salário que eu tinha antes por um mês, dá pra você viver cinco meses. Então imagina você ficar sete meses sem receber e perder tudo por fora, foi muito dinheiro. Mas estou com saúde, alegria. O importante é você parar e ter onde morar, onde comer. Muitos jogadores hoje que têm muita fortuna, mas se você analisar, caramba, hoje estou com 52 [anos], posso curtir a vida até uns 90, uns 80. Depois Deus vai, pega e recolhe, por isso que você tem que viver a vida. E graças a Deus vivo a vida. Com simplicidade, com tranquilidade.

Então é por isso que você não guarda a medalha, a camisa, o troféu, essas coisas?

– Não, não. Eu vendia, por exemplo, a medalha, vendia as camisas porque precisava vender mesmo. Porque surgiu a oportunidade, está lá, já ganhei, por que não vou vender? Até falei pro Rivaldo, pô Rivaldo, você tem seu museu aí, tem uma família, pô. O Cafu também tem tanta coisa aí, se você subir, vai ficar tudo aí. Pô, vamos vender. Eu tenho um comprador, me dá aí 2%. Os caras "pô, tá maluco, Amaral?" Não, porque realmente, você já conquistou. Se colocar no Google lá, pô, quantos títulos o Amaral tem? Está lá, quatro brasileiros, quatro paulistas, Rio-São Paulo, Mercosul, Copa Itália, Campeonato Turco. Está lá. Eu vou olhar pra minha camisa, caramba, joguei com essa camisa. Pô, pano apodrece e dinheiro paga conta.

Não tem nada mesmo?

– Nada, nada, nada. Então os caras falam, ó, não tenho nada. Pô, você tem alguma camisa? Não tenho nada. Às vezes eu pego com meus primos lá, alguns açougueiros que eu dava também, dava um monte de carne, toma uma camisa aí, me dá aí uns 30 dias de carne. E pronto.

O que faz você se emocionar?

– Hoje o que pega mesmo são a minha mãe e a minha filha. Quando você consegue atingir um certo patamar em condições financeiras, você quer investir nos seus filhos. Na época que minha filha começou a fazer faculdade, até falei pra ela "filha, a gente tem condições de te manter no estudo, mas pode ser que vá faltar". E se você for pra um ENEM, passar, tenho certeza de que vai ter uma estrutura muito melhor, porque se formar hoje um médico é praticamente é meio milhão. É muito complicado.

– E minha filha sempre foi muito inteligente. Meu filho foi para outro caminho, hoje só trabalha. Minha filha já está nesse lado do Doutorado. A gente foi viajar ano passado no Réveillon e ela veio falar para mim, às vezes até me emociona porque é gostoso você ver a alegria do seu filho conseguir uma coisa que você nunca pensou de conseguir. Comecei a lacrimejar, do jeito que eu estou aqui. Meus amigos, pô, sem saber o que aconteceu, o que você tá chorando. Minha filha passou na faculdade e vai para a Austrália.

– O objetivo mesmo na vida é chegar na sua casa, abrir a geladeira e ver que tem alimento. Hoje você tem um teto. Por exemplo, aconteceu até um fato engraçado comigo, que em Capivari, eu, a minha mãe, quando a gente tinha dificuldade, a gente era despejado, o cara ia lá, cortava a luz, o cara ia lá, cortava a água. Não é como hoje, às vezes dá um gato. Não tem como, não existia isso. Desligou a força, se você for colocar lá, você toma choque e ficava a luz em vela. E minha mãe arrumou emprego e foi morar no porão. E às vezes as pessoas passavam perto do porão e mijavam. E a minha mãe falou "pô, cheiro de xixi, você fez xixi na cama?" Eu falei, não, não. Alguém passou e mijou e espirrou em mim aqui. A gente morava no porão, mas era um cara feliz. E passou um tempo, esse porão se tornou um restaurante japonês e fui com a minha filha. Hoje, a gente está comendo onde eu dormia. Eu nunca tinha comentado isso com ela, mas como assim, papai? Você dormia onde? Eu dormia aqui embaixo. Essa casa aqui, morei nela, só que morei aqui embaixo.

Você teve essa preocupação de preservar a família durante a sua carreira?

– Não quero que meus filhos passem o que eu passei. Eu não quero que minha mãe passe o que ela passou. Então eu procuro dar o melhor, por isso que as pessoas falam assim, pô, você... perdeu muito. Não, eu ganhei muito. Porque só o fato de você hoje ter um teto pra morar, não dever pra ninguém, ser um cara bem respeitado... não tenho empresário. Hoje, às vezes, eu marco um evento por meio do meu Instagram.

Ganha mais dinheiro hoje como influencer?

– Posso dizer para você que tem, às vezes, campanhas que faço que ganho muito mais do que quando jogava. Não juntando tudo, mas, tipo, por mês. Hoje estamos em outros tempos, eu me reinventei, entendeu? Imagine um cara que não sabia ler nem escrever direito fazer um filme, fui fazer um reality, fiz A Fazenda, Dancing Brasil, fiz The Masked Singer e fiz um filme do Tirulipa com o Tom Cavalcante no cinema. A mulher veio e me deu um monte de roteiro. Falei que era difícil eu decorar. Me dá a meada que dou meu jeito. Aí ela me deu a meada e fui do meu jeito. Ela falou que ficou melhor que o texto.

Você ainda teve um grupo de pagode...

– O Marcelinho ficou com todo o dinheiro, o Divina Inspiração (risos). Marcelinho falou para fazermos um grupo de pagode. Eu falei "pô, mas como, Marcelinho?". Porque eu toco. Eu sei tocar, aprendi sozinho, sei tocar percussão. (...) E a gente pegou os melhores músicos, os melhores compositores e falou, bora gravar. Só que, por exemplo, todo artista é como todo jogador. Quer jogar onde? No Maracanã. Quer jogar no Morumbi. E todo artista, naquela época lá, gostava de tocar no Olympia, ele encheu o Olympia (antiga casa de shows em São Paulo). Acho que ele deu o ingresso pra todo mundo, a gente fez até um CD. Vendeu mais de 300 cópias de CD, chamava Divina Inspiração. Só que eu não cantava, só tocava. Marcelinho cantava. Uma vez a gente foi no Faustão. Aí o Faustão falou para fazer ao vivo. Marcelinho falou que estava meio rouco, porque era o playback. Depois tive que sair da banda, ficou tudo para ele.

Qual o melhor técnico com quem trabalhou na carreira?

– Acho que com todos eu me dei bem. Mas um treinador que estava nos tops de todos os tops, que perdeu o foco e até hoje podia estar treinando a seleção brasileira é o Vanderlei Luxemburgo. Foi um cara com quem eu fiquei mais tempo.

Por que acha que ele perdeu o foco?

– Você está mexendo a massa, sabe o tempero. Por mais que você tenha um auxiliar, ele não vai saber o seu tempero. Você vê hoje muitos treinadores que têm cinco auxiliares, antigamente era ele mais um. Então, acho que muito tempero não dá liga. Quando você tem o tempero e você chama um outro, ele só vai botar uma massa, mas não vai sobressair. Então, perdeu o foco nesse sentido, entendeu? Que hoje tem a análise, tem isso aqui, desempenho. Mas desempenho é nas quatro linhas. Os três pontos, acho que nesse aspecto aí, para você ver, quando ele chegou no Real Madrid, ele fazia os caras assistirem à televisão. Não existe. Está entendendo? O que vai agregar? O que agrega é dentro do campo, você pode ser o melhor cara de falar, de botar, mas se você não está dentro do campo e o time ganhar, o mérito é seu. Então, acho que o futebol também perdeu muito nesse aspecto.

Qual foi seu time mais marcante?

– Acho que três marcantes. Palmeiras, pelos jogadores que tinha. Corinthians, pelos jogadores que tinha. E o Vasco também. São times que eu posso escalar para você.

Acha que jogaria de qual forma hoje?

– Eu fazia o jogador jogar, porque eu não passava, eu não fazia gol. Tenho três, quatro gols na carreira, mas minha cabeça não era de fazer gol. Minha cabeça era dar o suporte para que meus meias servissem meus atacantes. Hoje eu vejo o atacante ajudando o volante. Hoje eu vejo dez jogadores dentro da área e o menorzinho fazer gol. Antigamente, não. Antigamente a gente puxava com três e os caras tinham que segurar quatro lá atrás. Imagine você botar Neymar de um lado, Vinícius Júnior de um lado, ou ao contrário, Neymar centralizado, Vinícius Júnior de um lado, Raphinha do outro lado, ou Estevão. Duvido que os caras não segurem os quatro lá atrás.

Neymar vai jogar a Copa?

– Só depende dele. Talento tem. Diferenciado é. Está com gana de jogar futebol. É a última Copa do Mundo. É a última oportunidade, porque se ele quisesse parar amanhã, ele parava. Porque o que ele já conseguiu, ia ficar fazendo tour, ia ganhar muito mais do que ele está ganhando agora. Porque Neymar é marketing. Neymar é popstar. Então, por exemplo, o treinador vê se ele tem as condições. Só que não é a gente querendo plantar, tem que convocar.

– Seleção brasileira, para mim, é momento. Para você ver como são as coisas na Seleção. O Fernando Diniz foi treinar o Vasco. Quando o Coutinho estava lá, ele falou que o Coutinho tinha condições de estar na Seleção. Mas quando ele estava na Seleção, ele não olhava para o Coutinho desse jeito. Estêvão foi várias vezes convocado para a Seleção e nunca colocaram. Quando o Ancelotti colocou, é ele mais 10. Então, a seleção brasileira é momento.

E o elástico do Romário, acho que você conseguiu capitalizar para o lado positivo. Você brinca, tira sarro, mas na época você ficou puto?

– Com certeza. Todo mundo tirando sarro, vinha pra lá. Romário! Eu pra onde? Romário! Aonde? Mas, por exemplo, faz parte. Liguei pro Romário esses dias atrás, ano passado, falei pro Romário, caramba, se eu soubesse, ia deixar você dar sete elásticos em mim, porque ele fez uma propaganda na HBO, os caras me ligaram: "Romário, a gente quer usar esse lance, a gente tem tanto de caixa pra vocês". E eu já com o saco cheio, vai sujar minha imagem, já dei no coração dos caras. E cantou? Aí eu liguei pro Romário, o elástico deu mais que a poupança, por gratidão.

Como é a sua ligação com o Corinthians e o Palmeiras? O Edilson, por exemplo, também jogou nos dois, mas é mais ídolo do Corinthians...

– O Edilson foi por causa das provocações. Porque hoje, muitos jogadores de futebol trabalham em televisão, vestem a camisa do clube. Eu sou grato ao Palmeiras. Sou grato ao Corinthians. Por exemplo, tem jogo do Corinthians que eu vou assistir. Tem jogo do Palmeiras que eu vou assistir. Mas eu não fico falando, não fico provocando. Eu tenho um respeito. Então, isso é legal. E para você ver, eu fui campeão pelo Corinthians em cima do Palmeiras. Teve a briga do Corinthians com o Palmeiras, eu estava no Corinthians. E eu só... "Não vou bater em ninguém". Tem um fato engraçado. Quando eu saí, uma senhorinha falou assim: "Tá vendo? Os caras não respeitaram nem o Amaral que jogou lá, olha o que fizeram no olho dele". Não, minha senhora, meu olho é assim mesmo. Aí virou mais uma piada.

Como que era o vestiário do Vasco com o Romário e o Edmundo?

– Com o Edmundo eu tenho um carinho muito grande. A gente jogou junto no Palmeiras. Quando ele foi para a Itália me ajudou bastante. E o Romário é um cara maravilhoso também. Só que os dois tinham vaidade. Se um chegava com uma Ferrari, o outro chegava com uma Lamborghini. Se um chegava com outro carro, o outro chegava. Então eles tinham esse tipo de vaidade. Só que dentro de campo, eles eram muito unidos.

Como é que nasceu o ai ai ai ui ui ui?

– Eu estava no ônibus, mas o cara veio "tum", ai, o outro veio ui. Aí eu comecei a colocar ai ai ai ui ui ui, né? Aí, pô, pega, pegou. Pegou, não está registrado, não. Nem registrei, mas hoje tem o ai ai ai ui ui ui. Os caras mandam um monte de música pra mim. Pô, ó, nasceu uma música aqui, ai ai ai ui ui ui, tem como você postar? Pô, eu não sou cantor não. Se quiser que eu grave tua música, eu gravo.

Alguém já ficou bravo com você por alguma história?

– O Rivaldo fica doido. "Pô, você quer ganhar seguidores, você tá me queimando". Mas você falou mesmo, achou que era um prato de comida? Ele fica doido. Rivaldo, eu gosto muito dele.

Como que você resumiria a sua vida hoje?

– É, eu sou um cara simples. Humilde. Eu acho que eu sempre falo que a fama passa, o dinheiro acaba. Mas isso não pode acabar a simplicidade e humildade e nunca esquecer de onde a gente saiu, entendeu? Isso eu prezo muito nos lugares que eu vou. Tem momentos de tristeza, que todo mundo tem, mas quando os caras me convocam para estar num lugar eu procuro levar a leveza e a alegria.

Uma palavra que define o Amaral?

– Humilde.

Foto: Vasco
Amaral

Fonte: ge

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