'Colidio parece próximo de se adaptar. Sosa encontra dificuldades'

Quem assistisse ao primeiro tempo de Palmeiras x Vasco teria dificuldade de assimilar que estava diante do primeiro colocado enfrentando o 19º. No entanto, bastaram os primeiros dez minutos da segunda etapa para que algumas coisas ficassem mais claras, e algumas das razões que explicam os 29 pontos e 18 posições que separam as duas equipes aparecessem.

De um lado, estava o clube com a segunda maior receita do país, um dos projetos de futebol mais caros e mais sólidos do Brasil. Do outro, um Vasco que luta contra emergências financeiras enquanto tenta fechar a transição para um novo dono de sua SAF. E a consequência mais imediata do abismo é a qualidade técnica individual, a capacidade de encontrar soluções. Já voltaremos ao tema.

Mas a forma perigosa como as histórias dos dois clubes vêm se cruzando nos bastidores torna o debate natural. O Regulamento de Sustentabilidade Financeira, recentemente aprovado, trata sobre multipropriedade de clubes na Seção 9 de seu Capítulo 3, e estende a parentes as vedações. Como, oficialmente, o novo investidor é enteado da presidente do Palmeiras, e não o seu marido, caberá aos órgãos de controle decidir se há conflito. O que não parece justo é colocar em questão a legitimidade do resultado da partida. Soa até desrespeitoso com os profissionais que foram a campo e suas famílias.

O tema central é que o futebol brasileiro luta contra um atraso na questão do fair play financeiro. Episódios recentes com Corinthians, Internacional e agora o Vasco mostram que custa muito barato se endividar. Sempre há uma recuperação judicial, um deságio proposto aos credores e um pedido de permissão para receber novos empréstimos e contratar mais jogadores, tudo dentro da lei — sem contar os Refis e loterias criadas para salvar tantos clubes. Tampouco ajudam gestos que soam como afronta, como a foto de Leila, seu enteado e um dirigente do Vasco à beira do gramado do Nubank Parque.

Feito o parêntese, voltamos ao jogo. Não é que os 3 a 0, construídos em dez minutos de segundo tempo, tenham sido produto de uma grande guinada tática num jogo que o Vasco controlara muito bem na etapa inicial. A mudança de rumo é produto de um chute brilhante de Flaco López, uma jogada provavelmente inacessível a boa parte dos jogadores que o Vasco tinha em seu ataque.

No primeiro tempo, quando o time defendeu bem as movimentações de Flaco para buscar bola no meio-campo e anulou as tentativas de construção dos donos da casa, os vascaínos tiveram ao menos duas ótimas escapadas de contra-ataque. Mas, sempre que se viam perto da área rival, faltava o refinamento, o acabamento. Porque o gramado é a imagem de um time do Vasco que luta contra as limitações do clube. Para piorar, o 2 a 0, surgido logo na sequência, vem num pênalti bem marcado, embora num lance quase acidental. São muitos golpes em muito pouco tempo.

Uma vez em desvantagem, o time tende a se desmanchar. Se há algum alento a buscar num jogo que termina em goleada por 4 a 1, está no fato de que, com Pedro Emanuel, o Vasco tem tido mais períodos em que compete bem contra adversários de bom nível. Dos reforços que trouxe, Colidio parece mais próximo de se adaptar, enquanto Sosa ainda apresenta dificuldades. O drama só aumentará se Léo Jardim, fonte de segurança nas últimas temporadas, se transformar em outro motivo para dúvida.

É fato que o Vasco ganhou mais estrutura, mais capacidade de se proteger com o novo treinador. Mas há questões cuja solução, por vezes, não está ao alcance do treinador. Restam 15 rodadas, e o Vasco disputou um jogo a menos do que três de seus concorrentes mais próximos. A salvação é possível, mas anuncia-se outra reta final com cara de luta pela sobrevivência.

Tabela e classificação

Com a vitória, o Palmeiras chega a 51 pontos na liderança, abre seis de vantagem sobre o Flamengo e volta a depender apenas de si para conquistar o título do Campeonato Brasileiro - o time paulista tem um jogo a mais. O Vasco segue em 19º lugar e está atolado na zona de rebaixamento, com 22 pontos.

Os clubes agora voltam as atenções para a Copa do Brasil. No meio de semana, o Palmeiras enfrenta o Santos, no Nubank Park, enquanto o Vasco recebe o Vitória, como mandante. Pelo Brasileirão, na próxima rodada, o Verdão encara o Mirassol, no domingo, no Maião, enquanto os cariocas enfrentam o Cruzeiro, no sábado, em São Januário.

Fonte: Carlos Eduardo Mansur - O Globo

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